ESSE IMENSO CIRCO CHAMADO BRASIL

Aproveitando o gancho das homenagens ao dia do circo, instituo, a partir de agora, (como se eu pudesse instituir alguma coisa) o dia da palhaçada, eu que não tenho como profissão a arte de fazer rir num picadeiro, mas que sou palhaço debaixo dessa imensa lona verde-amarela. Aliás, somos milhões deles a dar pulo, cambalhota, tomar pontapé no traseiro, rir, chorar, ouvir e acreditar. Alguns cresceram e envelheceram sonhando com o circo do futuro sem saber que futuro é algo que não chega.
Esqueci-me até, de perguntar aos meus irmãos de sapato grande se estavam de acordo com a minha boa intenção de oferecer à classe um dia que exaltasse o maior traço de sua personalidade marcante: vinte e quatro horas dedicadas às caretas e aos tabefes. Pensando bem, é melhor que fique só na brincadeira a ideia que não chega mesmo a me entusiasmar, pois não vejo sentido num dia inteirinho só para isso, outro só para aquilo. Não há uma finalidade prática para tamanha palhaçada.
A água, por exemplo, é desperdiçada e poluída antes, durante e depois do seu dia. O professor tem um dia só dele que não impede que sinta um bocado de vertigem no perigoso trapézio em que se transformou o ensino circense. A árvore, imagine, continua sendo arrancada do solo pelas mãos do astro de roupa brilhante que lhe rouba o direito à vida, embora tenha lhe concedido um dia de bajulação. A Terra também tem lá seu dia especial, e é massacrada continuamente, a despeito disso. Penso até que seria mais conveniente a criação do dia da hipocrisia que não deixa de ser uma palhaçada bem disfarçada, e retrata o estado de graça que impera nessa imensa casa de espetáculos onde quem anda na corda bamba é o palhaço.
Há também muita encenação nesse mundo encantado de cores, músicas e aplausos: “A derrubada da mata em país distante”, “A impunidade numa nação longínqua”, “A escalada da violência numa região remota”, “A corrupção desenfreada debaixo do nariz do apresentador mor”, “A proliferação das ONG’s estrangeiras no norte de lá”, “O eterno sub-emprego dos artistas da graça…” São alguns dos dramas apresentados a uma plateia eufórica que assiste a cada um, grata por se saber segura, longe das crises anunciadas.
Distinto público, eu quis dedicar um dia à palhaçada, principal atração debaixo da mega lona tupinambá (tupiniquim já cansou), mas lembrei que muitos galãs circenses poderiam aprovar tal deliberação somente para mostrar para inglês, que andam de mãos dadas com os palhaços. Deixemos, pois, a dissimulação para lá.
PROF.RODOLFO DE SOUZA

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑