Velório deriva de vela, assim como velar deriva de vela. Não que vela seja acessório necessário lá naquela sala onde permanece o corpo por toda uma noite, somente para o lamento ou para as despedidas de quem nutre algum afeto pelo falecido. Aliás, lugar que serve também para pensar. Há tempo, silêncio e motivo de sobra para refletir.
Possivelmente o maior paradoxo desta vida é justamente isso, o fato de ter de morrer um dia, o que não deixa de ser uma agressão, uma violência contra nós seres humanos. Não que eu pretenda registrar aqui o meu protesto para depois encaminhá-lo a Deus que deve saber o que faz. Mas como é difícil lidar com a questão! Principalmente se há algum laço que nos prende ao finado, sujeito desaforado que se foi e deixou para trás o corpo como se dissesse “adeus, fiquem com o meu cadáver de lembrança”.
Contudo, por mais desagradável que pareça conviver com o espectro da morte, é sempre de bom tom dar uma passadinha pelo local, ou ainda pernoitar, se fora pessoa de sua intimidade aquela que agora habita outras planícies. Assim como fiz numa noite dessas em que, mergulhado numa névoa de reflexão que me ausentava da presença dos demais, senti algo que, a princípio, não consegui identificar. Fitava aquilo que fora em vida um ser inteligente, e o semblante de olhos fechados e tudo parado, causou-me estranha aflição que me provocou algum desconforto. Passei um bom tempo pensando sobre o assunto. Só agora, distante daquela atmosfera lúgubre, é que arrumei definição apropriada para tal sentimento: é vazio que se sente. É mesmo uma tremenda sensação de vazio que se apodera de nós quando contemplamos o corpo inerte, destituído da preciosa chama da vida. Por mais amor e respeito que se sinta pela pessoa, antiga moradora daquele organismo, é difícil enxergá-la ali, deitada como se dormisse. Tornou-se, após o falecimento, somente aquilo, um manequim, um reles objeto com aparência humana, em especial, do ente querido a quem pertencia. Uma estátua na horizontal é o que é. Penso até que se trata de uma artimanha divina para evitar sofrimento ainda maior, essa impressão.
Passei horas naquele lugar e tentei, por vezes, me desvencilhar do vazio que me perseguia, querendo talvez dizer-me algo. Que era uma entidade curiosa por conhecer as coisas desse mundo, provavelmente.
— Um espírito? – indaguei eu.
— Não, somente nada é o que sou. E nada será conduzido daqui a pouco àquela gruta subterrânea a fim de fartar os vermes – disse, por fim, contundente.
Em dado momento, sacudi a cabeça para espantar o sono de altas horas que poderia estar querendo sabotar o meu pensamento, produzindo aberrações mentais que deixam um frio sinistro no estômago.
Uma vez livre do sono, passei a observar os presentes para matar o tempo. Alguns conversam, outros cochilam, tomam café, desfrutam mesmo do momento mórbido porque, afinal, nem todos padecem de dor tão pungente e já que ali estão somente para dar prestígio ao evento, um papo descontraído não poderá fazer mal algum.
Repentinamente alguém se desgarra do grupo e vai conferir o morto. Acaricia-lhe a mão fria, pronuncia um lamento qualquer, senta-se com o olhar distante como a querer elaborar um conceito a respeito da estupidez a que fora submetido. Vãs indagações se fazem notar em seu rosto: onde estará, terá sofrido? Em seguida, desmoralizado com resposta nenhuma, volta para a roda de conversa e deixa lá o defunto exercitando a sua solidão que só começa. Droga de vida, por que tem que acabar?
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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