ATMOSFERA IRRESPIRÁVEL

Acordei. A atmosfera ira irrespirável. Eu não sabia que acabava de acordar. Imaginava.

O cheiro forte era insuportável. Não conseguia definir o que era. Parecia…

Não havia ar e estava apertado o local onde eu me encontrava deitado de costas. Não sabia do que se tratava. Estava confuso.

Não se parecia em nada com uma cama em meu ou em qualquer outro quarto. Estava duro e a escuridão não era intensa, era total, o que não deixava de ser estranho, afinal quando nos encontramos repentinamente em local com pouca luz nossos olhos habituam-se rapidamente e conseguimos enxergar algum vulto. Ali não, era impossível ver.

Tentei mexer o corpo e percebi que algo o envolvia. O mesmo que me sufocava com seu odor. Dava a impressão de que estava em uma… Floricultura… Sim! Flores!

Mas, por quê?

Aquilo lembrava… Não, não era possível.

Tentei mover os braços, levantá-los. Consegui. Com um pouco de esforço, havia panos me envolvendo, ergui o braço direito e o dorso da minha mão tocou em algo que provocou um barulho aterrorizante de madeira. Uma tampa, percebi quando apalpei-a até a altura da minha cabeça. Muito baixa, a poucos centímetros de meu rosto, havia uma tampa. Eu me recusava, tentava afastar aquele pensamento.

Levantei a perna direita com dificuldade, pois havia mais panos que a envolviam. Algo amarrando, impedindo meus movimentos, e o meu joelho tocou, sem que eu o flexionasse muito, aquela… Tampa.

A falta de ar era cada vez mais intensa e o local estava muito quente. Muito abafado.

Eu tentava, eu queria acordar, imaginando que vivia um pesadelo e que nesse sonho mau eu me encontrava dentro de um caixão. Mas era tudo muito real.

Meu Deus, eu estava onde imaginava estar!

A agonia começou a se apoderar de mim e com as duas mãos tentei empurrar para cima. Porém, ao contrário do que pensava, era resistente. Bati até sentir dor. Mas o espaço era pequeno e não havia como impulsionar os braços. Aquilo estava na minha cara, quase podia tocar com o nariz.

Por um momento sufoquei. Pensei, que modo horrível de morrer!

Quase entrei em pânico.

Lembrei, então, que alguns deles, eu me recusava a pensar em seu nome, possuíam na altura do rosto, um pequeno visor de plástico e que acima deste colocava-se uma tampa. Poderia ser um ponto frágil daquele sinistro objeto.

Tentei com esforço levantar o braço, desta vez o esquerdo, até a direção da tal janela. Para tocar a tampa, este se comprimia à minha testa. Mas eu tinha que liberar meus membros. Tinha que pensar em algo, com calma. O tempo era curto, e o oxigênio também, a temperatura, insuportável.

Como pensei, o caixão era dos tais que possuíam o plástico que comecei a arranhar na ânsia de encontrar uma abertura qualquer, uma imperfeição no acabamento que me permitisse enfiar os dedos e arrancá-lo.

Passei a mão em todos os pontos e percebi que estava grampeada com os grampos próximos uns dos outros, portanto, sem pontos onde pudesse meter as unhas. No entanto, eu tentava. Era minha única saída.

Estava sufocando e o desespero se apoderava da minha alma que ainda estava ali, não havia embarcado para além túmulo como imaginavam os algozes que me sepultaram.

E mil pensamentos norteavam minha mente de defunto vivo, vivíssimo: o que teria acontecido? Eu não me lembrava de nada. Nenhum acidente, tombo, febre, nada. O que fazia ali, afinal?

Eu suava e queria gritar. Queria não, gritava. Mas somente eu me ouvia: uma voz sufocada. Desejava que soubessem que estava ali, vivo, prestes a morrer uma morte horrenda. E o ar acabava.

Estranha sensação de solidão me invadia o espírito que todos imaginavam lá noutro plano, outro mundo que não fosse o paraíso terrestre. E eu estava lá dentro daquele objeto macabro. E sabia que era praticamente impossível escapar. Lembrava-me do caso que ouvi em que, ao desenterrarem uma pessoa, anos após sua morte, encontraram o esqueleto de bruços e com as mãos descarnadas de encontro ao rosto, denotando sofrimento, desespero. E pensamentos como aquele aterrorizavam-me ainda mais.

“Ei! E se ainda não fui enterrado? É uma possibilidade!” Pensei, cheio de esperança, enquanto sentia dores. As cãibras começavam a aparecer.

Não, não devia contar com isso. O silêncio era absoluto, assim como a escuridão, o calor.

Meu braço esquerdo continuava pousado sobre minha testa. Voltei a puxar, ou tentar puxar o plástico. Não soltava. Soquei-o, mas era difícil, como era difícil!

Minhas pernas, custava movimentá-las tão presas estavam.

A agonia vinha da falta de ar, do escuro, do silêncio, do calor pegajoso e, principalmente, da horrível sensação de aperto, de imobilidade.

O tempo esvaia e as lágrimas precipitaram pelas laterais do meu rosto.

“Como em pleno século 21 enterra-se uma pessoa viva?! E a minha família que naquele momento chorava a morte do pai e, um dia, descobriria que morrera dentro da própria sepultura! Ah, sim! Porque eu haveria de deixar uma pista, um sinal para que soubessem que fora assassinado.”

Mas eu não podia desistir, simplesmente renunciar à vida, entregar os pontos.

“O primo de Laura é médico. Não estaria presente quando determinaram o meu falecimento? Por que não vem em meu socorro?”

“Nem sabe que estou vivo, ora!”

“Todos, provavelmente, estão a chorar o meu desaparecimento. Quanto terá se passado? Pouco, com certeza. As flores ainda cheiram.”

Meu braço esquerdo doía por sobre meu rosto enquanto eu tentava, a qualquer custo, arrancar o pequeno plástico, pouco acima do meu nariz.

O ar acabava e a agonia aumentava. Meu corpo estava preso, sem espaço, mais escuridão e silêncio absolutos, além do sufocante cheiro das flores e… Calor. Minha vida esvaia-se da mais absurda e desesperadora maneira.

Mas eu estava disposto a lutar até perder a consciência. Então tudo seria mais fácil.

E não havia como agarrar a pequena janela plástica. De repente, um grito sufocado saiu de minha garganta, rompendo o silêncio, e as lágrimas precipitaram-se pelas minhas faces ao pensar que minha família estava lá, os meus, e eu ali morrendo asfixiado sem poder dizer a todos o que se passava. O sentimento de solidão era imenso. “Eu estou aqui, vivo!”

Que hora seria? Dia ou noite?

O que teria me levado para aquele buraco?

Comecei sentir a cabeça girar; uma forte vertigem procurava derrotar-me. E os meus dedos arranhavam freneticamente o tal plástico, empurrando-o de encontro à pequena tampa de madeira que, com certeza, eu não conseguiria quebrar. Então, por que insistir?

Eu queria virar o corpo de lado para então forçar a tampa e, quem sabe, soltá-la.

Depois da ginástica mais incrível em tão reduzido espaço, consegui colocar-me de lado e, com os braços, empurrar e empurrar, gastando preciosas quantidades de oxigênio, quando comecei a ver bolas coloridas e a cabeça começar a martelar de dor.

“Por que diabos aquelas coisas tinham que ser tão presas, parafusadas? Para que o defunto não fugisse?”

Desesperei-me e me flagrei chorando como uma criança. Eu sempre tão controlado, dono dos meus sentimentos, costumava chorar de rir diante de alguma situação muito engraçada; ah, isso sim!

E Deus, onde estaria?

“Oh Deus, livre-me disso! Permita que eu viva, Senhor!”

E não sabia como podia haver tanto oxigênio ali, já que lutava havia um bom tempo, dentro daquele caixão, provavelmente comprado com muito carinho.

Meu corpo vivinho, de lado, espremido, doía muito, principalmente minha cabeça.

Voltar à posição normal não foi tão difícil. Ruim foi a roupa embolar quando eu me virei, puxando-a, causando uma horrível sensação de desconforto.

O braço esquerdo, levei-o à altura do rosto, novamente, comprimindo-o contra a malfadada tampa, para tentar removê-la.

O suor, misturado às lágrimas, ardia-me as vistas.

“Por que não doei meus órgãos?” Eu falava. Já não pensava, falava.

“Dificilmente acordaria sem coração.”

A agonia, sensação horrível, se apossara dos meus nervos e eu socava a tampa, sem força, porém, por falta de espaço e oxigênio. Ela, também, não dava indícios de fragilidade.

Eu urrava feito bicho no momento em que a impressão de estar com um saco plástico enfiado na cabeça, começou a tomar conta de mim.

E quando não havia mais o que respirar e eu comecei a sufocar, numa atitude de desespero, clamando a Deus que me livrasse do horror da asfixia solitária, sem luz e sem som, com o corpo preso como se estivesse dentro de uma camisa de força, parti para o ataque batendo, sem posição, bem acima do meu rosto, na pequena tampa.

Bati e bati o máximo que pude, receando o desmaio, pois depois dele, certamente, viria a morte.

Minha cabeça doía e eu comecei a ofegar feito um asmático, tentando puxar para dentro do meu corpo qualquer milímetro de oxigênio que pudesse existir.

Não sabia como podia naquele momento preocupar-me com o sofrimento de minhas filhas quando, anos depois, descobrissem a verdade.

Soquei e empurrei.

“Sai, tampa malditaaaaa!!!!”

“Saia. Você tem que saiiiiir!!!!” Berrava eu.

Meus ouvidos começaram a assobiar, minha cabeça a girar, quando minha mão direita, que gastava a pouca energia do meu corpo, fez-me ouvir a mais doce canção de toda minha vida: o estalo da pequena peça que demonstrou estar cedendo.

Entretanto, não havia mais tempo, nem ar para novas investidas. Eu sufocava, puxando o ar que não vinha.

Permanecia empurrando quando novo estalo ressoou, e outro, e o plástico, que sob o peso de minha mão empurrava a tampinha, cedeu juntamente com ela, criando uma abertura quadrada, no último instante antes da minha morte, quando eu já perdia a consciência.

Meu braço varou a tampa do caixão, saindo quase até o cotovelo.

Fiquei semi consciente, quieto, ofegante, sem saber que respirava o pouco ar que vinha da gaveta onde eu me encontrava sepultado.

Porém, quando recobrei os sentidos, nova sensação medonha manifestou-se ao tocar o concreto frio logo acima da tampa do caixão. Mesmo consciente do local onde me encontrava, havia aquela impressão de que acima da tampa de madeira o espaço era grande suficiente.

A altura era mínima, ou seja, aquele espaço acima da tampa era pequeno e não seria possível levantá-la, exceto um pouco, proporcionando pequena abertura.

Novamente entrei em pânico e constatei que estava perdendo o domínio sobre os meus nervos. Tremia, gemia, resmungava, mas sabia que a calma era fundamental, além do mais, vencera uma etapa, por que não a próxima…? Que próxima?

Deslocar a tampa, por menor que fosse o espaço disponível. Tinha que abrir aquela urna para continuar vivo.

Tirei, então, o braço direito dolorido que arrebentara a pequena tampa e coloquei o esquerdo, tateando o exterior até que, à minha direita, pude sentir uma chave na posição vertical, uma das quais utilizadas para parafusar a tampa.

Embora soubesse que havia outras tantas chaves, senti imenso prazer em poder girá-la, mesmo com certa dificuldade; quem apertou imprimiu considerável força temendo, talvez, que eu me evadisse do local.

Virei-a até que se soltasse. Levei a mão até mais acima da minha cabeça, percebendo que não seria nada fácil alcançar a outra chave, muito distante.

Impulsionei o corpo para trás, estiquei ao máximo o braço, retirando-o até o ombro, quando alcancei-a com a ponta dos dedos.

Havia um espaço entre a minha cabeça e a parte posterior do caixão. Entretanto, não podia contar com ele porque uma espécie de espuma colocada ali para o meu conforto, impedia meu deslocamento.

Eu continuava sem ar. Para respirar um pouco precisava retirar o braço da pequena abertura a fim de sugar o pouco oxigênio que se encontrava fora do caixão e que não demoraria a acabar.

Voltei a trabalhar com a ponta dos dedos, dando impulsos para trás, girando um pouco a chave a cada solavanco do corpo.

Custou a soltar. No final parecia espanada, virava, mas não soltava.

Finalmente retirei-a e a trouxe para dentro, sustentando uma ideia que surgira quando da primeira abertura.

Retornei o braço na ânsia de buscar o que respirar. Considerando a dificuldade de trazê-lo em espaço tão reduzido, meu membro, por vezes, não encontrava jeito de entrar e voltava só até o cotovelo.

Nesses momentos, o ar me faltava e a agonia me fazia puxar o braço com tanta força a ponto de arranca-lhe sangue devido ao atrito com as beiradas, o plástico rasgado, os grampos.

Então, eu buscava a calma, colocava-o fora novamente, movia meu corpo com jeito até poder trazê-lo.

Após muito sofrimento constatei, decepcionado, que só alcançaria as duas chaves retiradas.

Trouxe o braço esquerdo, respirei um pouco e coloquei o direito, retirando as chaves opostas.

Com calma recolhi-me todo para dentro do caixão. Tentei forçar a tampa, mas outro imprevisto aumentou ainda mais meu desespero: outras chaves prendiam a parte posterior da tampa.

Mesmo assim forcei e esta abria e fechava um pequeno vão, conforme eu empurrava.

Continuei o mesmo movimento. Forçando para cima, soltando, e a abertura, aumentando cada vez mais, fazia me chegar um pouco de ar às narinas. Ar que restava naquele pequeno local de concreto onde jazia meu corpo vivo. Muito vivo, até então, graças a Deus!

Mas eu sabia que não havia forma de liberar a tampa, já que ela tocaria no teto, sem que fossem retiradas as outras chaves e permaneceria naquele abre e fecha até que o ar se consumisse e…

Não. Era necessário lutar. Até o perfume misturado de flores estava mais suave, ou havia me acostumado, não sei.

Tinha que vencer o cansaço e continuar.

Levantei a tampa com força para tentar o rompimento da trava proporcionada pelas duas chaves que se encontravam acima de minha cabeça. E soltei, e tornei a empurrar, colocando minha mão direita na abertura, na tentativa desesperada de aumentá-la.

Não consegui, porém, sustentá-la e esta prendeu-me, deixando de fora meus dedos latejantes. Forcei com a outra mão e consegui soltar a direita, mordida pela tampa.

Empurrei, novamente, e aproveitei para puxar um pouco mais de ar, que já começava a escassear, trazendo-me nova onde de pânico, principalmente por saber que sofrera, e ainda sofria, na luta com um caixão de madeira, quando depois haveria uma parede de alvenaria a transpor. Com certeza, não estaria rebocada do lado de dentro, mas de fora… Era uma corrida contra o tempo. Rebocada ou não? Se rebocada, estaria totalmente seca?

Aquele sentimento medonho, de novo, começou a provoca-me tremores, enjoo, dor de cabeça. Eu procurava não pensar para não ser dominado pelo medo. Não podia lembrar que estava dentro de um caixão, sem sequer conseguir abri-lo totalmente e, ainda, dentro de uma câmara de concreto fechada por uma parede de tijolos. Câmara esta com espaço suficiente para um esquife.

Voltei a empurrar a tampa e esta finalmente estalou, denunciando que a chave à direita da parte de cima, soltara-se. Abriu, então, um pouco mais e eu continuei a batalha.

Todo meu corpo doía, a cabeça latejava, sentia náusea, minha mão direita sangrava, meus braços também, e eu gemia, resmungava.

A presença daquela tábua sobre meu rosto irritava-me mais e mais. Por sorte havia a pequena abertura.

É impressionante como até uma pessoa calma, dona de suas emoções está fadada a perder o controle. Logicamente que diante de situação tão inusitada, até um defunto entraria em pânico.

Na intenção de sentir a parede à minha direita, coloquei o braço para fora e o levei até encostar meu ombro na lateral do caixão. Mesmo com o rosto pressionado contra a tampa, não consegui tocá-la.

“Maldição!!!”

“Onde estará?”

“Talvez não esteja!”

“Não. O coveiro fecha logo após o enterro e haveria luz, ar, barulho.”

“Não. Nããããoo!!!”

Nova ideia surgiu em minha mente vivinha: comecei a encolher as pernas de lado até posicioná-las dobradas, trazendo-as para mim e empurrando com os joelhos para forçar a tampa. Evidentemente eu não conseguia colocá-los para cima, o que ajudaria muito.

Espremido, sufocado, novamente chorava toda angústia que não chorara durante quarenta e poucos anos de vida, a maior parte dos quais por Laura, com Laura e seus devaneios.

Mas aquilo era diferente. Um facínora condenado à forca ou à cadeira elétrica, ou então à suave injeção de Pentotal, não viveria final tão angustiante.

Enfim, a força das minhas pernas acabou por soltar a tampa, produzindo forte barulho e confirmando uma triste constatação: o teto era baixo, muito baixo e não havia como levantá-la.

Consegui, porém, deslocá-la e colocar minha perna esquerda para fora, tocando o pé na parede oposta. Não sabia realmente em que sentido de direção se encontrava meu corpo. Acabei por descobrir que a parede recém construída estava à minha direita.

Tentei retirar a tampa, mas não havia espaço. Ora batia na lateral esquerda, ora na frente de meus pés, ora no teto. Ou seja, solta, permanecia por sobre meu corpo.

Forcei, então, o pé contra a parede oposta, empurrando com energia.

Consegui arrastar, desta forma, o caixão comigo dentro, até tocar a parede de tijolos à direita, a porta que eu deveria abrir. A única possibilidade de retorno à vida, às pessoas, aos meus, ao mundo dos vivos, lá fora. Mundo que me condenara à morte.

Quem acreditaria? Certamente me esfregariam um laudo médico na cara e me fariam voltar para minha sepultura.

E a imprensa? Ah! A imprensa! Viraria notícia. A platéia cheia de curiosidade haveria de assediar-me. Que escândalo! Não, era melhor ficar ali mesmo, quietinho, até tudo acabar. O toque na parede fria trouxe-me de volta o senso de humor, apesar da agonia, sempre presente.

Não havia tempo a perder. Peguei uma das chaves da tampa, a que guardara junto a mim, e comecei a raspar a massa, aparentemente, fresca. Antes, porém, dei alguns socos provocando um barulho surdo. Quem sabe não resistisse? Quem sabe alguém lá fora ouvisse e corresse em meu socorro?

Ou corresse de mim, o que era mais provável. Só na minha cabeça de defunto vivo poderia passar uma coisa dessas. Que ser humano, em sã consciência, abriria aquele local só porque ouvira um morto, provavelmente se decompondo, bater na parede? Cruz credo!

Mas a luta continuava e a massa, eu podia senti-la esfarelar-se enquanto raspava com a pequena chave um espaço entre os tijolos.

Fui retirando o cimento em torno do primeiro enquanto meu corpo estava agora meio que na transversal.

Minha cabeça deitada, meu ombro direito apoiado na lateral de madeira, o braço esticado com a mão a roer. A perna direita, eu conservava dentro e a esquerda fora, apoiada na outra extremidade.

Mas sentia despertar em mim uma esperança que se tornaria realidade assim que conseguisse retirar o tijolo e sentisse o ar fresco vindo de fora.

Porém, enquanto isso não acontecia, a sinistra presença da asfixia voltava a rondar. O ar parecia ter desaparecido como que de repente. Ou eu gastara muita energia…

A vertigem voltou, as dores não cessavam e tornei a ficar ofegante.

O pânico se instalou naquele pequeno recinto de uma só pessoa, à medida que o tempo passou e a massa pouco saiu. Dava a impressão de que o tijolo era largo. Maior do que o normal.

Mas a luta continuava. A tampa de madeira sobre meu rosto, o apavorante teto de concreto logo acima, o mau jeito em que se encontrava meu corpo dolorido, mas eu brigava pela vida. Recusava-me a acreditar que a ausência de ar venceria e eu morreria na praia.

A chave ia fundo nas laterais do tijolo quando a retirei e bati para ver se este cedia.

Ainda não.

Voltei a introduzir, impaciente, a ferramenta que me abriria a porta para a vida. Sabia que a calma me salvaria, mas encontrava-me debilitado o suficiente para não pensar com clareza.

Eu respirava como alguém com crise pulmonar respira. Batia na tampa, nas laterais, rasgava o tecido que ainda restava na parte interna, esmagava as flores e raspava. Não sei se com a força adequada, mas raspava.

A massa parecia estar bem seca querendo selar meu trágico destino e quanto mais tempo eu gastava mais dura se tornava a parede.

Entretanto, um tijolo que eu retirasse traria ar, precioso oxigênio que me manteria vivo até que algum valente coveiro viesse me salvar.

Bati novamente no tijolo, este não cedeu e a chave caiu. Com alguma dificuldade a peguei e retomei meu trabalho temendo estar rebocada a parte externa.

Um pedreiro caprichoso e trabalhador poderia ter completado o serviço. Mas tão rápido?!

Num momento de asfixia, dor, supremo sofrimento, esmurrei o tijolo até sentir doer a mão direita, que já estava ferida.

Entrei em pânico ao imaginar toda luta acabar em morte.

“Maldita parede!”

“Socorro!!”

Só eu ouvia minha voz abafada dentro daquela câmara horrenda, onde o som produzia um efeito estranho, assustador.

Eu passava a mão pelo rosto molhado e gritava:

“Deus!! Senhor meu Deus!! Salve-me por favor!!”

Clamava e socava o tijolo:

“E se eu virasse totalmente e colocasse os pés desse lado? Poderia imprimir mais força e, quem sabe, derrubar a parede.”

Tentei virar. Mas desisti. Era muito, muito difícil, talvez impossível virar o corpo naquelas condições extremas, de total aperto. Eu gastaria o oxigênio que restava na tentativa e provavelmente nem conseguisse bater o pé.

Minha mão doía, meus braços, todo meu corpo, até que, agarrado ao tijolo, eu o forcei para cá e para lá e pude sentir um leve deslocamento. Então, uma sensação intensa de alegria se apoderou de mim com aquele movimento, indicando que começava a se soltar o tijolo.

Prossegui batendo e mexendo para os lados e ele foi se soltando cada vez mais. Fiquei eufórico.

Utilizei a chave para raspar a massa que, ainda, resistisse.

“Se eu tivesse uma alavanca… Qual o quê!”

Permaneci longo tempo naquela batalha. Minha mão mexia cada vez mais lenta. Sem força.

A cabeça novamente girava e doía. Parecia não estar vivendo aquele pesadelo. Era irreal tudo aquilo. Estaria acontecendo comigo?

Percebi, então, que começava a sucumbir à asfixia. O calor era intenso. A posição em que me encontrava fazia latejar algumas partes de meu corpo, enquanto outras tornavam-se dormentes.

Era impossível um ser humano permanecer vivo naquelas condições. Começava a perder os sentidos.

Contudo, um fiapo de consciência persistia e mantinha acesa a chama do meu coração.

Meus olhos teimavam em fechar num sono mórbido proveniente da fraqueza, que começava a me dominar. Meu cérebro, submetido a impiedosa falta de oxigenação, entregava os pontos. Eu começava a acabar.

Meus movimentos, cada vez mais lentos, denunciavam a minha entrega. Mal podia sentir o tijolo. Não havia mais ar. Eu engasgava na tentativa sobre-humana de respirar. Tossia.

De repente, novo desejo de sobreviver invadiu-me a alma e um pouco de força vinda lá do âmago, levantou minha mão e colocou-a novamente em luta com o tijolo que se recusava a sair.

Ora mexia para cá e para lá, ora batia com a força que me restava.

Parecia um sonho bom, quase tão irreal quanto a situação em que me encontrava, a sensação maravilhosa de sentir o tijolo ceder mais e mais, para direita e para a esquerda, até que num derradeiro golpe de minha mão ferida, este foi arremessado fora da parede e o ar fresco entrou.

Estava salvo.

A moleza que me dominava não permitia sequer que o ar entrasse em meus pulmões. Faltava-me força para puxá-lo. Foi necessário esforço para trazê-lo, devagar com inspirações e expirações curtas, até conseguir respirar profundamente. Tossia muito.

Meus olhos permaneciam fechados. Eu ria, ria muito e este riso não tardou em se transformar num choro convulsivo.

Não sei se dormi, fato é que naquela posição horrível em que me encontrava, metido naquela gaveta macabra, eu perdi os sentidos, pois acordei instantes, ou horas depois.

Abri os olhos e em meio àquela escuridão pude ver uma pequena claridade vinda da minha janelinha salvadora. Parecia noite.

Algum som também me chegava. Um cachorro latia ao longe. Nunca amei tanto ouvir um latido. Estava de volta ao mundo dos vivos!

Coloquei a mão direita para fora, sentindo o frescor que tornava aquele local, agora suportável.

O que fazer? Esperar até que amanheça e alguém venha em meu socorro?

Mas tocando a parte externa da parede, verifiquei que, de fato, estava rebocada e assim sendo, dificilmente alguém viria àquele local antes de finados, dali a alguns meses.

Ri, ri igual a um idiota.

“Terei que gritar e muito para que minha voz saia por esse buraco, suba até a saída do túmulo e encontre o ouvido de algum transeunte daquela alameda, sempre tão vazia. Alguém da manutenção ou limpeza, quem sabe?”

Então meu espírito de luta retornou forte, estimulado pela dura vitória conseguida com sofrimento extremo.

Eu que vi a cara da morte e virara o rosto, ganhava, agora, forças vindas daquele pequeno buraco na parede, contato com o mundo externo.

O reboco era novo, fresquinho, e já que não tinha nada para fazer, nada para ler, comecei a raspar a massa do tijolo contíguo.

Aquela tampa horrorosa permanecia por sobre meu corpo. Ela me sufocava, apesar de estar um pouco deslocada de meu rosto. Era necessário dobrar o pescoço para que ela não me tocasse a face. Porém, quando a dor provocada pela posição exigia que eu retornasse…

Com as forças renovadas, cavei as laterais do tijolo e o agarrei com energia. Sem demora este foi ao chão. O barulho provocado pela queda denunciou que eu estava perto do fundo do túmulo.

Parecia não estar tão difícil a minha saída. Eu nem podia acreditar que a agonia estava no fim. Nova onda de euforia invadiu-me e imediatamente voltei ao trabalho raspando outra massa de outro tijolo.

Parecia madrugada pelo som que me chegava de uns poucos carros, numa rua distante.

Mesmo assim a claridade era cada vez maior.

Enquanto trabalhava eu pensava: o que teria acontecido? Não me recordava de nada. Lembrava-me apenas de estar em meu serviço e em seguida acordar naquele pesadelo, se é que é possível acordar num sonho.

Que médico, em que hospital, teria assinado o óbito de um homem vivo, condenando-o a uma morte hedionda?

Enquanto milhares de pensamentos invadiam meu cérebro oxigenado, eu retirava o terceiro tijolo, e o quarto, e o quinto… E meu ombro direito doía suspenso na lateral do caixão para que meu braço direito, fora, pudesse trabalhar.

Definitivamente eu não teria que aguardar finados para ser descoberto ali, morto depois de ter jogado um tijolo ao chão.

Eu raspava, eu batia. Passei a utilizar tijolos soltos para bater naqueles que começavam a se soltar. Uns cediam com mais facilidade, outros nem tanto, mas aos poucos se desfazia a parede caprichosamente erguida pelo hábil profissional do cemitério.

À frente uma outra parede se erguia, enorme, abrigando outros entes da família, dentre os quais minha mãe, que jazia num ponto qualquer daquela.

Que sensação estranha trazida por esses pensamentos!

A luta continuava. Era árdua porque só podia usar uma das mãos que latejava. Mas de tijolo em tijolo o buraco foi aumentando e, se não conseguisse sair, pelo menos minha voz se faria ouvir com mais intensidade.

Era difícil imaginar uma fuga daquele local, pois teria que abrir um vão suficiente para passar o caixão, que não era pequeno.

Dificuldade maior eu encontrei para retirar os tijolos da parte posterior da cabeça, o que fez meu braço trabalhar numa posição dolorosa por longo tempo.

Depois de mais partes da parede retiradas, resolvi arriscar e, segurando na parte superior desta, imprimir muita força tentando deslocar, com o meu corpo, o caixão para fora. Mas este esbarrou no que sobrara da parede na cabeceira, e eu tive que fazer movimento contrário, retornando à posição anterior.

Contudo, havia um pequeno espaço na parte de trás e com a mão esquerda no teto de concreto e a direita no que sobrara de massa na parte superior, forcei meu corpo para trás levando comigo o sarcófago. Logo deparei com o pedaço de parede que teimava em separar-me do exterior. Voltei à labuta e, de mau jeito, retirei os tijolos que faltavam, já com dificuldade, pois a massa estava cada vez mais seca, além das cãibras constantes, provocadas pela incomoda posição.

Restou o pedaço de parede lá nos meus pés. Poucos centímetros que talvez não atrapalhassem.

Imprimi, novamente, toda força com a mão direita, empurrei com o pé esquerdo no chão da gaveta, tentei remover, em vão, a tampa que batia no teto, no meu corpo e, devagar, deslizei até a saída. O caixão foi batendo nas extremidades e saindo de cabeça com os pés virados para dentro.

Consegui, num movimento circense, finalmente, colocar a mão esquerda junto à direita, na quina do teto com a parede que sobe, para puxar firmemente com muita força para fora, fazendo o caixão sair aos poucos, enquanto o suor empapava minha roupa. Aproveitei o momento para retirar definitivamente a tampa e jogá-la ao fundo. Alívio imenso senti ao livrar-me daquilo.

Pude, então, vislumbrar a laje e a pequena grade que fecham a sepultura, lá no alto. Os momentos de aflição estavam acabando, pensava eu, quando mais força tive que fazer com os dois braços, as costas e a cabeça, a fim de deslizar para fora e ficar pendurado.

Fui inclinando para baixo até poder retirar o pé direito que coloquei na parede para ajudar. Estava descalço.

Comecei a descer lentamente de costas com a cabeça virada para o chão, e eu temia o impacto pois, uma vez solto, o ataúde despencaria comigo dentro. Mas eu não suportava mais esperar, parar para pensar. Estava por demais ansioso.

“Chega de angústia!”

A força da gravidade foi implacável e meu invólucro de madeira desceu levando-me consigo.

Bateu na parede oposta e, por falta de espaço, caiu na diagonal, quase que na vertical, por sobre a tampa que jazia no fundo. E eu, que estava com os pés para cima, caí de mau jeito misturando-me com tampa, caixão, tijolos, pedaços de massa, de reboco, de flores e decido, esfolando-me ainda mais. Mas que prazer!

Coloquei-me de pé, entre as duas paredes, corpo dolorido, e olhei para cima. Respirei fundo. Meu coração pulsava forte e eu sentia vertigem. Por um instante tive que me apoiar nas laterais.

Como subir até a portinhola por onde deveria passar era uma outra história. E se esta tivesse um cadeado? Simples, removeria a tampa superior de concreto, com aqueles vasos enormes que costumam ficar em cima desta. Afinal, sentia-me um super-homem.

Para subir usei de um artifício de outrora, quando criança. Uma brincadeira que me fez recordar tempos antigos.

Coloquei braços, mãos e pés nas laterais, fiz força contra elas e comecei a escalada. Rapidamente cheguei à grade que, em lugar de cadeado, possuía somente um pedaço de fio de cobre, amarrado.

Ofegante, eu olhava, tentando imaginar uma forma de soltá-lo, porque, para isso, eu deveria tirar uma das mãos da parede e arriscar-me a uma queda.

Com muito jeito e esforço, imprimindo ainda mais força nos pés, soltei rapidamente o fio enquanto escorregava pelas paredes.

Subi, então, um pouco mais e, segundos depois, passava pela pequena abertura, ganhando a alameda.

Exausto, não pude evitar nova gargalhada seguida de choro quando me encontrei de pé junto ao jazigo da família, que quisera abrigar-me precipitadamente. Sentei-me sobre ele e respirei e descansei.

Tratei, porém, de deixar o local pois amanhecia e eu não queria ser visto por alguém.

Pulei o muro do cemitério e em pouco tempo ganhei a rua, evitando, desta forma, a portaria. O guarda noturno poderia deter-me e eu encontraria dificuldade para explicar o ocorrido. Estava com a roupa rasgada, suja de sangue, de entulho, ferido e feliz. Respirava fundo e aliviado o ar fresco da manhã.

“Que belo dia para se ressuscitar!”

O céu estava azul e o sol surgia no horizonte, amarelo avermelhado, maravilhoso. E esse sol nascia também para mim!

Eu andava sem sapatos pelas ruas e as pessoas olhavam com curiosidade. Afinal, trajava roupa social, suja, rasgada e manchada.

Encontrei alguma dificuldade em andar descalço por ter as solas dos pés finas. Falta de costume, talvez. Mas nada constituía obstáculo. Eu seguia em frente, sem rumo.

Não poderia chegar em casa e dizer “querida, cheguei”. Por certo haveria pânico, susto, principalmente devido à minha aparência de defunto que teima em não ficar na sepultura.

Como todos reagiriam a uma visão desta? Seria melhor, talvez, telefonar. Mas não para casa.

Jorge! Sim, Jorge, o primo médico de Laura. Ele trabalhava em uma clínica, não muito longe dali.

— Dr.Jorge não está na clínica. Hoje atende no hospital municipal.

— Muito bem, obrigado.

Deixei o local depois de explicar à recepcionista que estava bem e que não desejava ser atendido.

Caminhei devagar sob o fraco sol de primavera. Não tinha pressa. Todos estavam bem e a vida prosseguia sem mim. Legalmente eu não existia. Portanto, ninguém me esperava para o almoço.

O hospital era distante e o dinheiro que eu tinha não era suficiente para o ônibus. Os vivos deveriam pensar em colocar um trocado no bolso dos mortos, para essas ocasiões.

Mas eu era dono do meu nariz, nenhum verme roía ainda as frias carnes do meu cadáver, parafraseando Machado. Estranha sensação de liberdade se apossara da minha alma.

Ouvidos mortos também não ouvem esposas a reclamar, em tempo integral, de suas desilusões.

Devagar pelas ruas, entregue a meus pensamentos, parando aqui e ali, saindo rapidamente para fugir de olhares curiosos, cheguei ao hospital, perto do meio-dia.

Na entrada fui informado de que Jorge saíra para o almoço.

Pude, então, constatar a eficiência do governo municipal quando cobriram-me de atenção querendo leva-me ao pronto socorro, para atendimento.

— Não, obrigado! Os ferimentos não sangram mais. São superficiais – defendi-me.

Passeando como um mendigo pelas ruas, eu sustentava um conflito interno: por que apreciava andar assim maltrapilho, chamando mais ainda a atenção por estar com boas roupas, porém, rasgadas, sujas de sangue e pó de entulho, descalço, suado? Cansara da boa postura?

Naquele momento eu era dono de mim mesmo. Aquela tumba havia me parido para o mesmo mundo, porém, com outra vida. Renasci com tremendo sacrifício, de um parto de risco, e agora ela me pertencia.

“E se não mais aparecesse?” – Ocorreu-me. Dariam pela minha falta, ou melhor, do meu corpo, quando alguém fosse ao cemitério e constatasse que ele não mais se encontrava no local. Indagariam angustiados: “Quem teria retirado nosso pai e marido de sua eterna morada? Que espécie de maluco estaria interessado em guardar para si um cadáver podre?”

“Chamemos a polícia. Que ultraje! Até nossos mortos estão sendo roubados. Vilipêndio a cadáver, meu Jesus! Disso nunca ouvimos falar, não dessa forma.”

Eu não estava preocupado com o que diriam. Meu amor já não era suficiente para transtornar meu espírito com tal preocupação. Estranha sensação: até disso eu me libertara?

Pelas ruas da cidade eu caminhava devagar a divagar e os meus devaneios foram bruscamente interrompidos por uma visão familiar que me fez estacar. Uns poucos metros à frente, na porta de um restaurante, estava meu carro. Muito parecido com outros da mesma marca e cor. Porém, com esse objeto ocorre um fenômeno peculiar: o dono sempre conhece o seu.

A confirmação veio em seguida quando vi minha mulher deixando o local.

Tive ímpeto de chamá-la, gritar seu nome. Porém, numa fração de segundo recuei ao ver Jorge que passava pela porta, logo atrás.

Poderia ter ido em frente e chamado pelos dois. Contudo, uma intuição calou minha boca antes que pronunciasse seus nomes. Essa intuição não surgiu do nada: Laura dava uma gostosa gargalhada por qualquer coisa que dissera o primo. Riu mais algumas vezes antes de entrar no carro.

Aquela visão jogou-me na cara uma constatação que, apesar do estado precário de nosso casamento, muito me surpreendia: Laura demonstrava imensa felicidade para quem acabava de perder o marido.

Meu corpo nem esfriara e ela ria fogosamente.

Continuei minha caminhada assim que partiram. Meu rumo, agora, era meu lar. A casa onde alguém me esperava alegre: meu cachorro.

Eu já havia andado muito e meus pés, sem sapatos, não doíam. Coisa esquisita. Acho que o sofrimento por que passara tornara-me mais forte, resistente.

Precisava chegar em casa para tomar um banho, colocar uma boa roupa, munir meus bolsos com documentos e, quem sabe, algum dinheiro, para só depois pensar no que fazer.

As meninas, provavelmente, estariam na escola.

No longo trajeto encontrei uma praça com banco e bebedouro onde pude descansar, apreciando as árvores e o vento a balançar suas folhas. O mesmo que me batia no rosto e enchia meus pulmões. Ah! Eu nunca observara tanto o ato de respirar.

Permaneci longo tempo ali sentado. Pus os pés no banco. Pisei na grama, gostosa grama que havia muito não pisava. Gostei de sentir o mundo.

Meu estômago começava a roncar denunciando a falta de alimento. Devia estar havia muitas horas sem comer. Possivelmente o descuidado necrotério esquecera de oferecer qualquer tira-gosto ao seu finado cliente. Brincadeira sem graça.

Mas eu era um garoto, um moleque mais vivo do que antes a fazer gracejos para si mesmo.

Retomei a caminhada. Aliás, passei o dia caminhando, perdido nos meus pensamentos, chegando à minha rua quando anoitecia.

Apressei o passo com a intenção de não encontrar qualquer vizinho que me parasse, assombrado, para perguntar acerca do ocorrido e se apressar em levar a novidade a todo o bairro.

Como era de se esperar o portão estava trancado. O muro alto oferecia alguma dificuldade para penetração no recinto familiar, mas nada que pudesse me deter.

Uma vez dentro das minhas dependências, não fui assediado pelo meu fiel amigo, cujo paradeiro eu desconhecia.

Pensei na falta de segurança daquela casa, descuido meu, que além da facilidade de se transpor o muro, era dotada também de uma janela nos fundos, com a tranca quebrada, que dava acesso a um quarto vago.

Dentro de casa procurei, com cuidado, o interruptor, e a lâmpada não acendeu.

“O que terá acontecido? Laura tem o costume de desligar a chave geral quando viajamos. Mas…”

Quando pensava nas possibilidades, o barulho de um motor colocou-me em alerta. Aquele som conhecido do meu velho carro aparecia diante do portão.

“Chegou a hora da verdade.” – pensei.

“Espero não assustá-las. Impossível. Mas agora já estou em casa e não sou um fantasma como todos imaginarão.”

Outra verdade, contudo, adentrava a minha propriedade. Ou o que fora a minha propriedade em vida.

Com a ajuda dos faróis, minha mulher ligou a chave e começou a acender as luzes, assim que abriu a casa. Alguém fechava o portão por onde passara o carro. Mas quem? Provavelmente uma de minhas filhas.

Laura falava eufórica do almoço, do shopping, da peça que veriam logo mais, e eu permanecia em silêncio, intrigado, naquele pequeno cômodo escuro da casa. Até que fui tomado de espanto quando ouvi a voz da outra pessoa. Era o Dr.Jorge quem a acompanhava.

Não precisei de muito esforço para ouvir a conversa. Ambos falavam tranquilamente, sem preocupação. Bastou que eu me aproximasse um pouco…

— Ah! A ideia de mandar as meninas para a casa da minha mãe no interior, foi mesmo boa, não?

— Sem dúvida.

— Eu só não quero vir aqui com frequência, principalmente com você. Sabe como é, os vizinhos observam.

Eu também observava. O corpo do marido nem esfriara e ela levava para casa o primo charmoso. E que história seria aquela de “eu não quero estar vindo aqui?”

— Mas já que viemos vou aproveitar para tomar um banho.

Pude ouvir seus sapatos serem jogados de lado e seu caminhar descalço pelo corredor, rumo ao banheiro. O chuveiro foi ligado.

Da sala vinha o som do gelo balançando nos copos e o meu uísque sendo derramado.

Estranhamente eu não sentia ciúme ou raiva, sentia-me cada vez mais livre. Uma viúva que leva para casa o amante poucas horas depois da morte do marido, não devia sentir lá muito amor pelo finado.

Sim o amante. Eu desconhecia este fato. Pensava que minha esposa fosse só minha. Estava surpreso. Cheguei até a pensar que almoçaram e vieram somente como primos. Mas isso era completamente fora de cogitação. Laura tomava banho de porta aberta, e a bebida?

Fui até a parte escura do corredor e esgueirei-me pela parede até a um local onde pudesse ver a entrada do banheiro. E, de que visão terrível pude desfrutar: o Dr.Jorge sem seu característico uniforme branco. Nu em pelo. Trajava somente os dois copos.

Que estranheza invadiu-me. Por mais natural e benéfico que pudesse considerar aquela relação, eu sentia certa amargura. Afinal, minha Laura de tantos anos pertencia, na verdade, a outro.

Seu corpo estaria, dali a pouco, entregue àquele homem. Praticamente na minha presença.

O banho foi cercado de risinhos e ais apaixonados.

Eu, tudo acompanhava da porta entreaberta.

Quando o chuveiro foi desligado corri ao meu esconderijo de onde pude apreciar a nudez da minha mulher, ao lado daquele pústula, em direção ao nosso quarto, à minha cama.

Pude ouvir, ainda no banho, Laura dizer que estava gostando da vida na casa do primo, como se fizesse tanto tempo. Mas era preciso que ninguém soubesse.

Uma vez no quarto, as brincadeiras de amor recomeçaram, mais quentes, embaladas pelo efeito do drinque. E eu, masoquista, atento para ouvir Laura entregar, em minha cama, seu corpo que tanto me negara.

Pensei em me retirar e tomar outro rumo. Mas como seria possível? Minhas roupas, minhas coisas estavam ali.

Imaginei a cena se eu me apresentasse diante deles naquele estado.

Entretanto, Laura não começou antes de tecer um comentário que levou a um diálogo que chegou claro aos meus ouvidos, caindo como uma bomba em minha cabeça. A porta estava aberta.

— Perdoe-me se não consigo ficar totalmente à vontade. Aliás, se não fosse o uísque… Vou acabar alcoólatra.

— Bobagem, querida. O que está feito, está feito.

— Eu sei que concordei. Ou que fingi não saber. Mas no fundo ele era um bom marido.

— Mas era um obstáculo entre nós. Suas filhas culpariam você pela separação. Haveria a divisão de bens. Não se preocupe Laurinha, eu já falei, ele nada sentiu. Sofreu mais com o desmaio que o derrubou do que com a injeção que lhe dei. Autópsia não foi feita e pronto. Motivo do óbito: mal súbito. Ninguém jamais contestará. Afinal, eu assinei.”

— Você tem certeza de que ninguém o viu aplicar aquela injeção? Ele teve um desmaio na firma, provavelmente ocasionado pela pressão do dia a dia, algo que tenha comido, sei lá. Daí a morrer…

— Querida, acontecem tantas coisas, tantos males que surpreendem a medicina. Pessoas morrem do nada. Não pensemos mais nisso.

Eu simplesmente não podia acreditar no que ouvia: minha mulher, cúmplice do amante que tentara me matar.

Fiquei parado, estarrecido, agachado perto da porta, com o rosto metido entre as mãos, quando os beijos recomeçaram.

Laura, com quem vivi por mais de duas décadas, surpreendera-me tendo outro homem. Agora acabava de revelar que concordara com este em eliminar-me. Seria, segundo eles, mais prático!

Comecei a tremer, garganta seca, a raiva a dominar-me. O pústula não fez direito o serviço e quase mata-me da forma mais cruel.

Senti um desejo incontrolável de vingança. Mil maneiras de acabar com eles passaram pela minha cabeça enquanto ouvia os gemidos de prazer que Laura oferecia ao seu amor.

A revolta crescia dentro de mim ao lembrar dos momentos de agonia vividos dentro daquele túmulo, presente de minha querida esposa com seu novo homem. Ou seria antigo, não sei.

Eu não possuía arma, por isso pensei em ir até a cozinha. Qualquer faca de ponta serviria para golpeá-lo pelas costas, virá-lo e mostrar a ele minha cara. Quanto a Laura, mataria depois.

Pensamentos, ideias de vingança, cometas cruzando minha mente atormentada, incendiados pelo som que vinha do quarto. “O que fazer?”

A lucidez, porém, fez valer sua presença e mostrou-me que toda a liberdade de que usufruíra naquele dia, deixaria de existir. Eu me tornaria um assassino, fugitivo da justiça, sem chance de contar minha história, odiado pelas minhas filhas, por quem, eu sabia, era amado.

Ambos gemiam aceleradamente quando decidi jogar um balde de água gelada naquela relação e me apresentei.

Permaneci por alguns instantes, de pé, calado, diante daquela cena deprimente de um homem nu em cima de minha viúva nua.

Laura emitia sons incríveis quando me coloquei ao lado da cama para que notassem minha presença.

Ela percebeu algo, abriu os olhos, virou o rosto de lado e, à luz fraca do quarto, gritou a todos os pulmões no ouvido de seu amor que deu um salto para trás, olhando-me com olhos de terror, como se visse uma assombração. Uma alma penada saída do cinema macabro era o que eu parecia, um fantasma de carne e osso a fitá-los com o olhar mais sereno que pôde conseguir. De fato o belo corpo de Laura entregue àquele esboço de assassino não me provocava ciúme. A revolta vinha da intenção de matar-me, sendo o divórcio o mecanismo mais apropriado para uma separação.

Esse pensamento atravessou minha mente como um relâmpago, enquanto era observado pela dupla assombrada, principalmente por não saber o que se passava.

De repente, notei que o olhar de pavor de Jorge era vidrado, como se não conseguisse desviá-lo. Nem piscava.

Então, levou a mão ao peito, batendo com força e caiu de lado.

Pensei até que pudesse estar fingindo.

Laura reparou quando caiu, mas não se mexeu, nem tirou os olhos de mim, boca trêmula.

É impressionante como nesses momentos as pessoas deixam de lado a razão e imaginam se tratar da alma do outro que voltara para vingar-se. Não conseguem admitir que um homem, declarado morto, possa retornar à vida e ainda escapar da sepultura. É de fato inconcebível.

Jorge, bonitão, charmoso, arrogante, tinha, contudo, um coração frágil que não suportou a visão do morto que retornou para resgatar sua dignidade matando a mulher e o amante, responsável pelo seu tormento.

— O que você quer? – perguntou Laura, finalmente.

— Nada. Somente que você retire esse lixo da minha cama e saia com ele, porque eu preciso descansar.

— Perdoa, Marcos. – balbuciou ela. Marcos sou eu.

— Perdoá-la? Claro! A propósito, não precisa esconder o corpo. Esquece que fomos casados antes de enviuvar?

Laura, então, acordou para a realidade e tratou de socorrer seu amado que começava a esfriar por sobre meu leito.

Enfartou o desgraçado quando olhou para sua vítima, de pé, diante de si. Não posso imaginar o que se passara em sua cabeça naquele momento, já que estava seguro do que fizera. A emoção foi forte demais e o coração não resistiu ao medo das consequências de ter que acertar contas com um fantasma ou com a justiça dos homens que haveria de prendê-lo e cassar sua carteira de médico. Era um amador.

Deixei o quarto enquanto minha mulher se desmanchava em choro “torrencial” sobre aquela torpe figura, médico bem sucedido, assassino fracassado.

Da sala eu ouvia seu lamento e, estranhamente, minha revolta se fora com o sentimento de vingança que acabara.

Sem premeditar eu me vingara. Afinal, não pensava que a minha presença poderia matá-lo. Sequer passou-me pela cabeça tal façanha. Eu tinha medo até de olhar no espelho e morrer também.

A gostosa sensação de alívio e liberdade pairava quando ouvi o barulho de pessoas chegando com estrondo.

Eu permanecia parado, de pé, no meio da sala quando minhas filhas adolescentes, Maira e Ariadna, estacaram na entrada, boquiabertas, olhos arregalados.

— Pai?! É… Você, pai?! – Ariadna perguntou num sussurro, enquanto Maira chorava.

Muitos abraços, beijos e lágrimas deram-me a certeza de ser amado pelas pessoas mais queridas da minha vida. O calor emanado daquelas criaturas encheram-me de fôlego novo, vontade renovada de viver e esquecer.

— O que aconteceu, pai? A administração do cemitério ligou para avisar que tinham tirado seu corpo do túmulo… Voltamos imediatamente da casa da vovó.

— Não, não roubaram meu corpo. Eu o tirei.

— Mas como?

— Deu um pouco de trabalho, mas eu consegui. Depois eu conto como foi. É uma longa história de horror e agonia.

— E a mamãe, por que chora?

— Chora a morte de seu amor, o primo Jorge, que caiu, traído pelo próprio coração que não aguentou ver-me ao lado da cama.

— Então é verdade? Nossa suspeita se confirmou? – perguntou Maira. Mamãe e Jorge…?

O barulho pela casa foi aumentando e eu, que queria discrição, vi a vizinhança curiosa entrar pelo meu portão, seguindo a polícia, acionada porque um homem mal vestido foi visto pulando o meu muro.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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