Ando sempre pensando sobre a dificuldade que tem o ser humano em lidar com a complexa atividade de pensar. Parece contraditório, admito, já que passa a vida inteira a exercê-la… Chego até a considerar que o motivo de não conseguir desenvolver o pensamento, talvez esteja no fato de utilizar só uns míseros percentuais de sua mente brilhante. Penso muito nisso, principalmente quando presencio uma discussão em que duas pessoas partem para a agressão verbal, fazendo uso de todos os recursos linguísticos disponíveis em seu repertório, somente para ofender uma à outra.
Ocaso que testemunhei um dia destes levou-me a refletir seriamente sobre o assunto.
O tema central do embate era o barulho promovido por uma depois das dez da noite, que teria perturbado o sono da outra, moradora do mesmo quintal que, muito sensível, não tolera qualquer ruído a partir desta hora, mesmo que seja o caminhar solitário de uma lagartixa pela parede.
Exageros à parte, fato é que a primeira protestava revoltada, enquanto a segunda tratava de se defender, ambas aos gritos como se desejassem o testemunho de toda a vizinhança.
Já estive às voltas com muita gente assim, que exerce o direito de defesa fazendo uso de palavras que certamente deixariam vovó de cabelo em pé. Sempre em alto e bom tom, claro. Nessas ocasiões, tento, inclusive, me colocar no lugar de uma delas e imaginar como ficaria irritado a ponto de gritar impropérios ao meu opositor, que revidaria com a mesma raiva. Depois, troco de lugar e procuro ocupar a posição do oponente: como reagiria eu diante de tanta injúria. Acabo sem entender.
Claro que a razão está sempre a favor de ambos os lados, considerando a veemência com que impõem seus argumentos, sempre carregados de muito senso de justiça aliado a uma imensa piedade de si próprio. E gesticulam, e apontam o dedo indicador, às vezes o maior, quando os ânimos passam dos limites de exaltação… E prosseguem, até que ninguém mais consiga entender o que os levou a tamanha contenda, já que normalmente, passam para outras acusações que consideram ofensivas ao adversário. O objetivo é feri-lo a qualquer custo. Lembram até dois cães que, amarrados a pouca distância, sem poder se tocar, arreganham as bocarras e babam e ladram ferozmente, cheios de ódio, a devorarem-se um ao outro, com os olhos.
E eu me questiono sobre a razão que leva dois seres humanos, que dividem o mesmo ar e a mesma terra, a promoverem tamanho barraco por motivos tão banais. E concluo que isso acontece porque bom-senso é termo que não faz parte do dicionário de quem anda para trás na estrada da evolução, sem a inteligência necessária para se cultivar uma boa dose de paciência.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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