Oswaldo chorava diante da sepultura onde colocavam o corpo de seu velho e querido pai. Não podia suportar a ideia de ver entrando para sempre naquele buraco frio, pessoa tão amada que estivera ao seu lado por toda vida, quase cinquenta anos.
Está tudo errado, pensava. As pessoas buscam conforto para si e para os seus. Preocupam-se com o bem-estar de todos para depois ver um ente tão querido num invólucro de madeira, adentrando aquela câmara solitária, apertada e horrenda.
Foi para casa, triste e revoltado. “Por que, afinal, tudo tinha que acabar daquela forma? Embora a morte fosse inevitável, que pelo menos as pessoas da família permanecessem conosco para sempre, mesmo depois de mortas. Eternamente com a serenidade de quem dorme.” Pensamento sinistro a atormentar sua cabeça. Tanto pensou que acabou sonhando que deixava o pai falecido em seu quarto, já que havia gente demais nos aposentos paternos e este tornara-se pequeno. Claro, que deveria providenciar acomodação, já que sua mãe, morta havia quase dez anos, lá estava com vovó e vovô lhe fazendo companhia. Se bem que o dormitório era grande.
Ficou preocupado. A família de pessoas sem vida estava aumentando e, porque era solteiro, seus irmãos lhe confiaram a responsabilidade de alojá-los. Ou melhor, herdou tudo quando ficou com a casa. Rapaz de sorte!
Problema ainda maior eram as dependências dos fundos onde repousavam tataravós e seus ancestrais. Pessoas com certidões de óbito antiquíssimas, outras sem. Gente tão antiga que até seus nomes desconhecia.
Sem dúvida, alguns séculos de história da família estavam ali sob seus cuidados. Cadáveres de velhos, de jovens e até de crianças. Homens, mulheres, louros, morenos. De todos os tamanhos e pesos. Era um peso.
Conservar tudo em ordem, livre da ação da poeira, do mofo, das traças, baratas e ratos era dispendioso, e nem todos os empregados contratados gostavam de realizar tal tarefa. Cobravam sempre mais caro.
Os irmãos colaboravam, mas sempre reclamando. Alegavam que a vida não estava fácil e que seria mais econômico se mandassem os antigos para um depósito de defuntos. Havia muitas empresas especializadas que ofereciam ótimos planos de pagamento, contrato de locação, alguns luxos como restauração de roupas arruinadas pelo tempo, maquiagem, confortáveis acomodações. Tudo por um preço mais em conta do que se gastava com serviçais domésticos. Havia muita propaganda por toda mídia: “NÃO PERMITA QUE O QUERIDO PARENTE FALECIDO PERMANEÇA NA PRESENÇA BARULHENTA DOS VIVOS, TRAGA-O PARA O SOSSEGO DA GUARDAMORTE, O SEU HOTEL DEFINITIVO!”
Oswaldo não queria saber disso. Soubera de trocas, confusões com mortos de várias famílias e o transtorno que causava a procura e reconhecimento dos velhos antepassados.
Decidiu que seria melhor se ficassem em casa mesmo. Afinal, as residências eram normalmente grandes e acomodavam números bem maiores de mortos do que de vivos. Era a vida. Um dia ocuparia uma daquelas salas, também. Ou seria jogado em um depósito, por um descendente inescrupuloso? Pior ainda se este não possuísse propriedade e o mandasse para um daqueles barracões horrorosos usados para guardar corpos de quem nada tinha ou morava de aluguel, já que neste caso os senhorios só permitiam a presença de vivos, rezavam os contratos.
Andando pela cidade, reparou na enorme quantidade de carros fúnebres que transportavam falecidos de todos os tempos, para todos os lados. Não eram negros. Ostentavam cores alegres com muitos anúncios, logomarcas e telefones.
Lendo jornais, revistas e assistindo à TV, percebeu, inclusive, que um forte seguimento da economia girava em torno do espantoso número de pessoas que partiram desta para outra, mas que continuavam no mundo dos vivos. E empregavam. A indústria da morte de fato empregava.
O último senso, diga-se de passagem, registrara uma população sem vida dez vezes maior do que dos vivos, em todo mundo. Já se falava na realização de estudo para resolver o problema do espaço que começava a escassear no planeta.
Definitivamente, ninguém abria mão do direito de guardar parentes queridos mortos, por amá-los ou por respeitar suas raízes, embora o conflito entre famílias fosse cada vez maior quando o assunto era a guarda dos falecidos. Ninguém queria assumir tal empresa, por mais amado que fosse o saudoso. Contendas colocavam em polvorosa a gente viva: “Vovó Cacilda e Vovô Anselmo estão conosco há décadas. As meninas estão sem quarto por causa disso. Eu e Marta somos obrigados a dividir nossa intimidade com três defuntos, por falta de espaço.”
Esta era, sem dúvida, a questão crucial e não se falava em outra coisa. Afinal, os corpos não se decompunham, era preciso destruí-los e por não ser uma prática comum, aterrorizava o ser humano, envolto em crendices e superstições relativas ao assunto.
Oswaldo estava aflito com a problemática mortuária quando acordou sobressaltado, suando. Percebeu que havia sonhado tudo aquilo e ficou aliviado com a realidade.
Sábia natureza, pensou conformado e confortado.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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