A MENINA DA FOTO

Impressiona o modo como as pessoas se habituam às situações cotidianas, boas ou más. É espantoso até como expressam descontração e certa dose de tédio, diante de fatos trágicos ou de perigo. Logicamente que nem todos compartilham de tão relaxante existência. Uns e outros padecem com o sofrimento. De qualquer forma, porém, entre o sufoco e o desespero, lá está ele, o incômodo sossego de alguém, cantado em prosa e em verso por um longo e efusivo bocejo, descarada intenção de mostrar àqueles, que a tranquilidade reina absoluta em meio ao caos. É como se a vida tivesse que ser assim, dura, só para amaciar o coro.

Se a chuva forte é tirana e começa a roer o pé do barranco, é fácil encontrar o habitante da encosta dizendo que está acostumado e que só sai morto. E sai, quando não faz do local sua sepultura, claro.

Num outro extremo, o sertanejo peleja para encontrar uma gota de água suja na terra calcinada. Precioso líquido que haverá de impedir que a carcaça de pouca carne seja entregue, de vez, aos urubus. Isso é seu Cariri que, quem sabe, um dia, a chuva livre da fome. Lembra até o homem cercado de miséria nas savanas africanas que ainda consegue esboçar um sorriso com a boca murcha, escancarada para o mundo.

O ser humano se adapta sim, ao frio, ao calor, à seca, ao deserto, à violência… Vê como corriqueiro, por exemplo, matar, esquartejar e enfiar o outro numa mala, só para dar cabo do coitado e muito ibope para a TV. Habitua-se, enfim, às mais torpes condições de vida. O sofrimento, encara-o conformado. Chega mesmo a ganhar intimidade com ele, como se fossem velhos amigos. Parceiros de longa data.

A menina da foto que eu vi numa revista, era assim. Pelo menos transmitia isso, essa familiaridade com a dor. Serena, caminhava pela rua, indiferente aos sujeitos parados atrás de uma parede, bem próximos a ela. Rebeldes armados até os dentes que espreitavam o inimigo, sedentos pelo sangue dele. Cena que me levou a refletir acerca desta vida e suas artimanhas.

E tanto olhei, e tanto pensei que acabei seduzido pela imagem. E, engolido por ela, mergulhei na realidade síria da reportagem. Nem fui notado pelos homens que tocaiavam outros homens. Bombas e metralhadoras eram música ao longe, e poeira, e fumaça, e ruína completavam a paisagem de desolação.

A garota carregava no semblante a calma de quem está a léguas de distância do conflito, ou de quem há muito se acostumara a ele.

Também não me notou a pobre. Parecia até sorrir e isso muito me intrigou.

Observei, por algum tempo, o local até sentir a necessidade premente de deixar a tal fotografia, antes mesmo que me acostumasse à loucura.

Voltei, então, apressado, para a minha realidade onde tornei a sentir, gratificado, o cheiro da revista. Alívio ter conseguido fugir do cheiro da morte antes que me habituasse!

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA   

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