GENTE MUITO LOUCA

Assisti, certa vez, a um filme em que um homem branco, preso numa aldeia de índios hostis (logicamente norte americanos), ouve de outro, com jeito de maluco, capturado anos antes, que o melhor a fazer era fingir ter miolo mole também, única maneira de ser temido e respeitado por seus algozes.

Neste caso em particular, não vejo diferença entre ficção e realidade, a mesma que pode ser compartilhada com quem sofre no coro os dissabores de uma vida em comum com a mente tresloucada, e a teme. Até porque doido que é doido não permite ser atormentado pela insanidade tanto quanto penaliza a pessoa que vive ao seu lado. Dedução óbvia, dirá você, sujeito ciente das coisas desse mundo. Convenhamos, no entanto, que é necessário falar a respeito. Até mesmo como forma de desabafo, alívio para quem tem a vida usurpada e ainda ouve dos demais que é preciso ter muita paciência. É o destino, o que há de se fazer? Por isso, é fundamental deixar a par do assunto o distinto e paciente interlocutor, como se para ele fosse a novidade do século. Assim, quem sabe o solidário amigo, ouvindo o drama, acalente, sem saber, a exausta alma de quem carrega a responsabilidade pelo cuidado com o cérebro diferente.

Mas a mente perturbada é tinhosa e tem lá seus meios de buscar a felicidade. Perspicaz, abre espaço entre os seus fantasmas só para apanhá-la distraída. Da até o que pensar tanta ousadia.

Refletir sobre esse mundo repleto de loucura remete-me, inclusive, à terrível constatação de que já existem loucos em número suficiente para desbancar a supremacia das pessoas normais.

Muito diversificada, diga-se de passagem, esta atividade de ser louco. Dos quadros mais graves de esquizofrenia, tratados com drogas pesadas, até aqueles casos em que o idiota dá muito trabalho, embora não ofereça lá muito perigo, e cujo maior defeito é pensar que conhece todos os segredos do universo, quando sequer consegue amarrar o cadarço do próprio tênis. Irritante, costuma desprezar o conhecimento oferecido por alguém que sabe das coisas, só para conceder todo o crédito ao imbecil por quem nutre grande afinidade. Complicada mesmo a arte de lidar com tudo isso. Coisa de louco!

Claro que, meio pirado também, por nesse mundo ter instalado residência, sinto-me no dever de falar de um sujeito de personalidade, da mesma forma doentia, chamado por todos de pessoa difícil. Não carrega a alcunha de desajuizado, embora sua interferência na vida alheia seja prática terrorista digna de menção honrosa lá na Al Qaeda. É justamente por ser considerado sadio no seio da sociedade, que este manda. Qualquer pessoa de juízo evita discussão com o tal. Sobretudo porque a ele é conferido o direito de se impor à custa de muito barraco que põe à prova a paciência de qualquer monge tibetano. É espécime facilmente encontrado no trânsito, na escola, no trabalho, no meio da gente que se diz normal.

Aliás, meio complicado definir normal. Se é aquilo mais comum, que se encontra com facilidade, em maior número… E juntando esses dados ao conceito de louco: pessoa medrosa, angustiada, agressiva, destrambelhada, cheia de sentimentos ruins… Então normal é isso, é a loucura!

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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