Está aberta a temporada de chuva, benfazeja chuva de verão que hidrata a pele e a mantém viva. Lava a alma também, e da de comer, e produz a lágrima que é derramada para engrossar o caldo da enchente. Porque afinal, grande é a quantidade de precipitação pluviométrica que encharca o cotidiano de quem mora nas encostas, baixadas, sopés… É gente que, como eu e você, depende dela para sobreviver, mas que deseja, cheia de rancor, que se vá para sempre quando o excesso leva de roldão a vida. E então este povo, cuja sina é mesmo manter os olhos voltados para o céu, em prece pede qualquer fresta de azul, de luz do sol que há de tudo secar. Da mesma forma que lá, noutro lugar, seca o pasto e o olhar das pessoas, igualmente dirigido ao firmamento. É mesmo coisa de louco essa existência em que se convive com os contrários: bem e mal, belo e feio, claro e escuro, necessário e demasiado… São desejos que se contradizem e dos quais não há como se livrar. Fazer o quê?
Este caso pluvioso, em particular, tem época para acontecer, ano após ano, assim como as estações que tem o seu tempo e depois se vão. Findo o período das águas, que alívio, resta à população flagelada limpar, contabilizar os prejuízos materiais e humanos, e acreditar que aquela verba prometida virá e que sua mágica conterá o morro, replantará a vegetação arrancada das margens dos rios, ou ainda abrirá um imenso guarda-chuva sobre a região. Claro que no decorrer dos meses a dura constatação de que tudo não passa de um engodo, acaba por afogar a esperança, porque afinal, a grana sempre escoa pelo ralo e quem de fato precisa dela, nunca vê sua cor.
Mas diante do sinistro não se deve abandonar o lar que insiste em ficar de pé, reza a cartilha daquele que não tem para onde correr com a família que já se habituou à catástrofe, e tem a casa como porto seguro à prova de toda e qualquer intempérie. Ilusão tinhosa esta, criada pela falta de perspectiva de quem finge não perceber que sua moradia de papel cai, e rola, e dissolve tal qual a terra cansada de receber tanta água.
É de tirar o sono pensar em tamanho sufoco. Talvez a ocupação desordenada do lugar, somada ao descaso no trato com a natureza, durante décadas, tenha proporcionando condições para que a tragédia tomasse corpo e se instalasse. Se bem que, de nada adianta refletir a respeito e apontar culpados. O jeito é levar a vida até que chegue o novo período de chuva. Aí, o drama recomeça, sofrimento mesmo para ninguém botar defeito. Diacho de vida complicada!
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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