ESPELHO, ESPELHO MEU

Pouca gente se dá conta de que atravessa a vida colecionando um amontoado de costumes e manias de forma compulsiva, às vezes, como entrar em casa por uma porta, e deixá-la pela mesma porta; ao trancá-la, é preciso verificar excessivamente se está fechada; os objetos, para alguns, devem ser dispostos sempre na mesma posição, por sobre um móvel; utilizar por décadas a mesma marca de um produto, também não deixa de ser transtorno para outros… E o que dizer, então, daquele que nunca usa roupa ou calçado de determinada cor, que jamais começa a subir uma escada, ou ainda adentrar um recinto com o pé esquerdo? Sem dúvida, uma vastíssima gama de aporrinhações a acompanhar essa gente por toda uma existência. Professor, por exemplo, tem o estranho hábito de dialogar consigo mesmo. Talvez pela certeza de que assim alguém dará crédito às suas palavras. Esquisitice que a educação nacional criou para ninguém botar defeito.

Mas dentre todas, há uma mania, talvez a mais importante por afetar o maior número de pessoas, que desperta mesmo a curiosidade deste escritor: a obsessão por se mirar no espelho. Claro que me refiro à parcela feminina da população, salvo raras exceções em que o narciso passa horas, embevecido pela própria imagem.

Para deleite da mulherada, há espelhos de todo tamanho e formato, espalhados por lojas, shoppings, estações rodoviárias, aeroportos, além daqueles guardados em casa, logicamente. Todos eles irresistíveis, a provocarem aquela paradinha obrigatória para ajeitar o cabelo, dar uma geral na roupa, se desesperar com aquela manchinha, aquele cravo que deve ser extirpado, enfim. Não consigo imaginar uma mulher, com exceção das de idades muito avançadas ou nada avançadas, que seja capaz de passar diante da mais genial invenção da humanidade sem dar uma vista d’olhos, checar se está tudo em ordem, se a bunda continua empinada ou se começa a despencar. Outro costume feminino, aliás: verificar se a própria nádega continua objeto de desejo!

Imagine, amigo leitor(a), as cenas que certa vez presenciei no recinto de caixas eletrônicos de um banco. Para variar, a fila estava grande e o tempo que passei parado ali, dediquei ao salutar hábito de observá-las em suas inúmeras facetas. Passavam garotas de variadas primaveras pela calçada contigua à imensa parede de vidro, é bom observar, espelhado. Elas não sabiam que eu as via bem próximas, cara a cara. Algumas checavam a estética do bumbum, outras o cabelo, a roupinha… Umas paravam, outras não. Teve até quem arreganhasse a boca para verificar os dentes, a língua, sei lá.

Permaneci ali, pois, incrédulo diante do comportamento delas diante de seu maior amigo e inimigo, o espelho. Aparato que por certo não me fascina, embora também conviva lá com outras chatices do gênero. Preocupa-me, por exemplo, alguém reparar em alguma mania toda minha, particular, íntima até. Afinal, não escapo ileso dessa mania de ter mania. Gente complicada, meu Deus!

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

  

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