Perdoe, meu Deus, a falta de palavras. Aquelas que os especialistas em religião possuem em seu repertório para se dirigir ao Senhor. Parece até que soam mais autênticas e com maior possibilidade de chegar até aí, orações pronunciadas por alguém que leva jeito para a coisa. O que certamente não é o meu caso.
Mesmo assim, insisto em lhe pedir clemência. Inicialmente, inclusive, ocorreu-me pedi-la somente para mim. Contudo, acho que por ter evoluído uma migalha qualquer nos últimos tempos, permiti que falasse mais alto o bom senso e considerei também a possibilidade de deixar de lado o egoísmo, afinal, tem muita gente por aí matando cachorro a grito, e sem força para clamar ao Senhor. Força espiritual ou consciência de que a vida não se resume a isto aqui, a esta miscelânea de equívocos que conduz esse povo ao fundo do poço. Lugar que, diga-se de passagem, ele pensa ter alcançado assim que sente nos pés a lama fria, e se engana e se amargura. Arrependimento, aliás, é sempre companheiro nestas horas.
Confesso até ser merecedor de um puxão de orelha, meu Deus, por ter me comportado mal outrora. Todavia, o Senhor é testemunha, tenho me esforçado na tentativa de procurar entender as pessoas à minha volta, embora deva admitir que não é fácil e, por vezes, flagro este filho que lhe escreve, a cultivar o rancor e o ódio por causa dos tropeços da vida. Ora é a seca, ora a enchente, ora o fracasso, ora a histeria, ora a corrupção… O que fazer? Sou fraco, sou humano, propenso mesmo a sentimentos ruins e, fadado ao desespero.
Porém, é necessário aprender, ler o que está escrito nas entrelinhas da existência, isto eu bem sei. Só que às vezes bate um desânimo, Senhor! É o avião que cai, é a medida do governo, é o preço do feijão, é o crime, a doença, o desemprego, a cara feia…
Mas a alegria deve nortear o ser, independente da crise vivida – diz o monge. O semblante não pode murchar pela falta de sorriso, único meio de se encontrar a felicidade – alegam alguns felizes vendedores de livros. Talvez eles tenham razão, afinal, são felizes. Entretanto, conversa fiada em demasia, vendendo esperança, tem me deixado meio entediado, Senhor. É preciso mais do que palavras. Ou, quem sabe, a palavra seja a chave de tudo? Não sei.
E a aflição segue chateando. É aporrinhação que não acaba, meu Deus!
Não consigo entender a razão de tudo isso, e se há uma razão. Seria demais pedir que me explicasse?
Não se chateie pela sua ignorância, meu filho. O entendimento é mercadoria rara nesse plano – palavras que, por certo, estão nos seus divinos lábios, prestes a rumarem até aqui.
Mas Senhor… torno a insistir que… Espere, o que faço? Começo a desconfiar de que descambei para o debate, e não tem cabimento um ser tão rico em sabedoria quanto uma pedra, se vestir de tamanha presunção. Perdoe a insolência.
Contudo, Senhor, já que não consigo decifrar o código da insensatez para criar um antídoto, clamo pela sua ajuda. Até porque, somente Deus pode livrar o ser humano de si mesmo.
Amém.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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