A avenida estava lenta, lenta pelo trânsito bastante congestionado em horário de pico. Nó que faz perder o tempo e a paciência. De repente, ocorreu-me indagar sobre o que teria causado o engarrafamento. Tola indagação presente nessa hora. Eu estava só. Era, pois, a única pessoa que poderia responder à minha pergunta. Cheguei, afinal, à óbvia conclusão de que não é necessário que haja um motivo para ter seu tráfego parado, uma grande cidade. Somente um determinado número de veículos tentando passar pelo mesmo local à mesma hora, e pronto. Quando acontece algum acidente, então, é bom nem pensar. A alternativa mais tranquila e econômica num momento como esse é desligar o motor e relaxar. Se tiver um livro à mão, tanto melhor.
Naquele dia, porém, o que entornou o caldo dos motoristas foi uma obra de contenção de encostas do rio que nos acompanhava, separando as duas pistas. Meu pensamento envolveu-se, pois, naquele problema que causavam máquinas e caminhões (que também são máquinas) em meio a carros, ônibus, motos, relógios, celulares, cérebros, corações, universo de máquinas pulsando naquele final de tarde. Mas o transtorno ali teve origem mesmo no diacho do barranco que insiste em engolir o asfalto.
Eu não dispunha de qualquer material de leitura, por isso voei nas minhas reflexões a respeito de homem, destruição e construção. E o rio, ali no meio, testemunha secular de toda essa rotina de transformar o ambiente, deixou para trás gerações de pessoas que muito trabalharam para tornar esgoto a água de um lugar que um dia talvez tenha proporcionado boa pescaria. Não tinha, portanto, como não ser protagonista do meu pensamento aquele que corre dia e noite diante das pessoas distraídas que torcem o nariz nas poucas vezes em que se lembram dele.
Mas ele segue seu curso, indiferente ao tempo e aos transeuntes. As árvores foram arrancadas de suas margens e a terra se liquefez. O leito, eles sujaram décadas após décadas. E mesmo assim ele prossegue, desejando ganhar fôlego nessa batalha contra o progresso que acaba com a natureza, e com o ser humano que também é natureza. Teima em existir o rio, esse bravo lutador que persiste em correr para longe, em busca, quem sabe, de uma época em que novamente seja visto como parte da vida humana, parte limpa, logicamente.
O homem lhe presenteia com muito concreto e muito lixo. Mas o rio, não acredito que guarde rancor. É puro, apesar da sujeira. Persistente, segue serpenteando, certo de que o amanhã chegará e, sem mágoa, ainda levará por água abaixo o malvado que lhe rouba a vida. Quem sabe depois os peixes voltem?!
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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