Eu tentava não deixar minha casa, afinal tudo que possuímos é nela que guardamos, inclusive, um bocado de sentimento impregnado nas paredes, emoções que norteiam a existência de cada um. Todas as nossas riquezas estão lá, com exceção de dinheiro, claro, sonho distante de pessoas sujeitas às intempéries do clima.
A chuva caía torrencial em minha vida e o barulho no telhado assustava, pois dava o tom de continuidade, de tendência a durar muito, e para quem mora em bairro pobre, exposto aos caprichos da natureza, poucos instantes debaixo de forte temporal significam tormento no meio da tormenta, normalmente no meio da noite. É sinônimo de caminhar com a água acima da canela dentro de qualquer cômodo. Mas eu teimava em não deixar meu lar porque é lá onde encontramos segurança, aconchego, e ele estava sendo profanado na sua intimidade.
Resistíamos, eu e meus dois filhinhos. Coitados, não tinham opção senão continuar ao lado da mãe que se recusava a deixar o recinto familiar para escapar da enchente. A eles só restava esperar e abraçar o seu maior conforto no auge dos seus quatro e cinco anos neste mundo cheio de trovoadas, o colo materno.
Não demorou muito, porém, para minhas esperanças de não ter de fugir correrem por água abaixo, quando o nível começou rapidamente a atingir meus joelhos, ameaçando meus bebês que choravam sobre a mesa da cozinha. A presença do pai, com a força de sua proteção, nunca fora sentida pelos pequenos que nem imaginavam um único homem ao lado da mamãe, habituada a todos e a nenhum, ao mesmo tempo.
Resolvi tomar um gole de cachaça para rebater a friagem ao sentir que a tremedeira começava a dominar meu corpo, e a minha intuição anunciava que a fúria do clima não demonstrava lá muita vontade de ceder às preces de milhares de pessoas em fuga para locais secos.
Para realçar o quadro de sufoco, a já esperada queda da energia elétrica tornou a situação ainda mais dramática com a água que agora passava da cintura, argumento incontestável da natureza forçando-nos a deixar a casa. Relutara até ali em partir por não saber para onde correr com tamanho temporal na cabeça e a prole a tiracolo.
Peguei, então, os meninos, cada um num braço, e iniciei a caminhada pelo chão esburacado, com pedras soltas, paus, tudo que compõe o quintal de uma casa pobre: um mundo de detritos submersos na escuridão.
Gritos infantis ecoaram pela noite quando o impacto do aguaceiro que caia do céu atingiu nossas cabeças. Sem rumo, seguimos em frente, tentando adivinhar a direção do portão, orientados somente pelos relâmpagos que clareavam o lago em que se transformara o terreno e a rua. Avançávamos lentamente e nossas lágrimas só faziam engrossar a massa de água que sinalizava o final dos tempos. Final dos tempos consumado dias depois, diante do monte de escombros e lixo em que se transformaram nossas vidas.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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