OLHOS PERTURBADORES NA NOITE

Nunca tinha reparado nos olhos de uma mariposa, ou de qualquer outro inseto. Mas uma delas levou-me a notá-los ao apanhar-me de surpresa, debruçado por sobre um livro, um magnífico livro que folheava devagar, apreciando textos e fotos, riquíssimos em cada detalhe da vida de três dos maiores escritores brasileiros.

Meu interesse deteve-se principalmente no último deles, na sequência, Carlos Drummond de Andrade, que além de ter seu nome no ponto mais alto do pódio da Literatura, exerce sobre mim um fascínio que me leva a ler e reler seus textos e, por vezes, perceber sua influência na minha forma de escrever. É o ídolo transformado em mito cujas letras perpetuaram seu nome.

O amor por pessoas famosas é comum em política, religião, esporte… Mas é na arte onde estão os maiores entusiastas, capazes de qualquer ato quando se trata de adquirir um objeto que esteja ligado à lembrança do artista, principalmente se tiver origem no próprio. Eu, por exemplo, tive a pretensa ideia de escrever para Drummond um dia, e fui contemplado com a resposta de um escritor que, como qualquer grande homem, era dotado também de humildade. O livro aberto, pois, sobre a mesa era a vida aberta do poeta que um dia viu meu nome em uma carta que gentilmente respondeu. Poucas palavras guardadas a sete chaves.

A fotografia é outro seguimento artístico que da mesma forma me fascina, principalmente quando antiga que traz no bojo muita história. Todo amante da Literatura ama uma boa história. E, ao observar a inscrição em cada uma, repentinamente a força de mais de três décadas de amor pelo escritor e sua obra, deixou-me estarrecido diante da visão do meu nome ligado ao dele. E meu nome com seu ilustre sobrenome produziram-me um sentimento estranho. Um tio-avô do século XIX congelou minha atenção na figura desbotada do retrato em preto e branco. Por algum tempo permaneci, olhar fixo no rosto de outrora, tentando adivinhar traços de uma personalidade de um tempo remoto que nunca imaginou ter sua imagem em tão célebre volume.

Foi então que num voo rasante pela mesa o bicho apareceu, pousou na outra página e ali esteve a fitar-me com indagadores olhinhos negros e protuberantes.

Por poucos infindáveis minutos o pequeno animal encarou-me com olhar perturbador, até que resolvi dirigir-lhe um insulto qualquer que faria de mim um louco, caso alguém entrasse no recinto e me visse falar ao invés de dar com a mão para espantá-lo. Ali ficou como que querendo instigar meu lado místico que resistiu bravamente, recusando-se a atribuir à sinistra presença caráter sobrenatural, apesar do tempo que passou voltada para mim como que tentando desafiar o meu bom senso. O silêncio dava o tom da relação que ora se estabelecia.

Acabei finalmente por simpatizar-me com a mariposa que o que queria, ao que tudo indica, era só desfrutar da minha companhia sem saber que debaixo de suas delicadas patas havia um bocado de história da vida de gente que retratou com muita paixão, o sentimento do mundo.

A minha mariposa, por fim, levantou voo deixando-me perdido num turbilhão de pensamentos ainda maior.

PROF.RODOLFO DE SOUZA 

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