O ABACATEIRO

Rosa havia muito emplacara os noventa anos e, tirando alguma dor ou mal estar frequentes em pessoas de idades avançadas, era capaz de executar qualquer serviço doméstico que aprendera desde menina.

Gostava de contar histórias e ainda sim considerava de mau gosto inventá-las, preferia falar de sua vida repleta de acontecimentos que faziam despertar a imaginação de seus netos, bisnetos, e quem mais viesse.

O personagem predileto de todos, com certeza, era o Vovô Licurgo de quem Rosa falava com muito orgulho, embora dissesse apenas que viveram juntos por muito tempo, quando era interpelada pela pergunta sobre quantos anos teriam se passado entre o casamento e o sinistro desaparecimento de seu marido.

Os ouvintes não insistiam nesse assunto por saberem que pessoas antigas com o tempo acabam adquirindo manias que poucos entendem. Vó Rosa, por exemplo, adorava abacate e tinha o estranho costume de comprá-los na cidade sem dar a menor importância a um gigantesco abacateiro carregado de frutos maduros, em seu sítio. Dizia que não eram bons como os do mercado.

Falava de sua infância perdida nos cafezais, da adolescência que as pessoas de seu tempo não possuíam, da autoridade jamais contestada dos pais, enfim, da dureza da vida que ela e seus irmãos não sabiam tão dura, pois não conheciam nada diferente.

Relatava seu trabalho de sol a sol, em quase todos os dias da semana. Só o Domingo era consagrado à missa e ao descanso, embora fosse dedicado também à faxina doméstica, às roupas, enfim, a qualquer atividade que não fosse o repouso merecido.

Não sonhava. Fantasiava coisas de sua imaginação porque naquele tempo e lugar não havia rádio, televisão, livros ou qualquer pista que a levasse à descoberta de outro mundo além daquele cafezal que tornava cada vez mais rico alguém que ela nem mesmo conhecia.

Seu pai não permitiu que fosse à escola, luxo para poucos, por considerar que lugar de mulher era na cozinha, no tanque ou na lavoura. Haveria sim de conseguir um bom moço para marido, trabalhador e honesto, com quem constituiria família com muitos filhos para cuidar, antecipando a chegada dos anos.

Suas histórias terminavam nesse ponto. Contradizia-se quando abaixava a cabeça como que arrependida por levar a imaginação dos presentes a reproduzir uma imagem falsa de seu marido, cuja memória ela fazia questão de manter imaculada: o homem forte, corajoso, hábil com o laço…

Um dia, porém, Rosa cansou. Resolveu, pois, que era momento de livrar-se daquele peso.

A bisneta Joice era a pessoa da família que conquistara definitivamente o coração da velha. Formada em jornalismo, muito parecida com ela mesma quando jovem, era obstinada e cheia de ideais, e dedicava uma atenção toda especial à bisa de quem pretendia escrever as memórias.

De braços dados as duas gerações de mulheres saíram para um passeio pelo sítio, observando as plantas, os bichos, o sol, a vida por toda parte, até que chegaram diante do pé de abacate e se sentaram à sua sombra.

Começaram a conversa que prometia muita emoção, pensava Joice, ansiosa por colocar tudo aquilo no papel e levar a todos, em forma de romance, a vida da bisavó.

Rosa iniciou a narrativa pela passagem de uma grande boiada que agitou a população de sua pequena cidade, em especial a feminina que se encantou com os vaqueiros barulhentos, gritando, assobiando e levantando o pó da terra. Homens rudes que enchiam a venda à procura de bebida para aplacar o calor, e acabavam tomando sim muita cachaça.

Coincidiu a chegada destes com o casamento da filha de Nho Dito, a Do Carmo, moça evidentemente donzela, conhecedora de todas as prendas domésticas, fadada a dar continuidade à sina submissa das mulheres de então. O noivo era lavrador, homem do campo, ignorante como todos os demais.

Na festa, Rosa que nem roupa tinha para a ocasião, usando qualquer coisa que recebera da mãe, que herdara da avó, fez valer a força de seu encanto de menina de dezessete anos e, mesmo com o vestido branco amarelado pelo tempo, conquistou Licurgo.

Este, boiadeiro de semblante orgulhoso, em tudo diferente dos moços daquele lugar, fez corte à camponesa, falou com seu pai e despediu-se dos companheiros que continuaram a jornada sem ele.

Três meses depois outra festa de casamento provocou alarde na região e Rosa entregou-se de corpo e alma a um homem que nem tivera tempo de conhecer, pois quase não se viam e, quando isso acontecia, só trocavam olhares sob a severa vigilância de seus pais.

A mãe pouco lhe falara a respeito das núpcias e seus segredos, e de como seria a primeira e as demais noites ao lado de um homem. Rosa desesperou-se, mas acabou aprendendo assim que tomou as primeiras pancadas. Descobriu na relação sexual um dever de casa ruim que não podia ser diferente para quem vivia um casamento com um bruto, um sujeito tosco. Além da cara feia do pai, não sabia da existência de maridos violentos que submetiam as esposas às mais sórdidas tarefas de cama e mesa.

Licurgo fez da vida de Rosa um inferno a ponto de deixá-la cheia de saudades da escravidão familiar. Chorava noite e dia e não admitia que Deus, o bom Deus, pudesse permitir que ela sofresse daquela forma.

O pai, quando a via, fingia não perceber as marcas que trazia, mesmo diante da clara intenção da filha de mostrá-las, como a pedir socorro. A mãe demonstrava o mesmo interesse, aliviada por ter conseguido casar a filha, prioridade naqueles tempos.

Rosa voltava, então, para o seu martírio: estupro seguido de espancamento. Uma vez levantou a voz para o marido a fim de detê-lo, atrevimento que lhe custou caro: uma semana se refazendo dos ferimentos.

Moça ingênua e indefesa, capiau como o restante da família e o povo do lugar, ela se submetia e procurava de toda maneira agradar ao marido constantemente irritado, a quem nada que fizesse poderia satisfazer.

Com fama de vaqueiro valente, ele logo fez amizades pela localidade, e seus seguidores, companheiros de bebedeira, eram fiéis até na admiração pela forma selvagem como tratava a esposa.

Licurgo, porém, numa tarde de calor, em raro instante de carinho, chegou da cidade trazendo para Rosa sua fruta predileta, abacate.

Esta de tão contente, sonhando com um novo homem que, quem sabe, Deus ajudasse, nascesse ali naquele gesto bonito e inconcebível, decidiu que plantaria a semente do primeiro que cortasse para comer.

O marido cuidava pouco da horta e também nada queria com o trabalho no cafezal, pois não tinha muita intimidade com ele, gostava mesmo do laço.

O mau humor voltou assim que ouviu da mulher que a situação era ruim, que não comia e que a fruta que trouxera vinha em boa hora. Pensou agradá-lo com esse comentário.

Era de fato uma pessoa muito magra e o pouco que produzia a pequena terra, vinha de seu esforço. Cuidava da casa, das roupas, das poucas verduras e de algumas galinhas.

Arrependeu-se de ter irritado Licurgo com aquela conversa. Teria sido melhor se continuasse sua vidinha sem provocá-lo. De nada adiantaria mesmo falar.

As agressões começaram quando ela cortava o abacate para devorá-lo de tanta fome que sentia.

O homem gritava, batia-lhe no rosto e sacudia seu corpo enquanto Rosa chorava de angústia, de terror.

Sua mente transtornada girava, e a revolta começou a encher de força a mulher frágil quando as grossas mãos apertaram sua garganta. Previu a morte e naquele instante teve até ímpetos de permitir sua chegada, a melhor forma de libertação.

Mas não. Decidiu ali, no auge do desespero e do medo, que a liberdade viria mesmo com a morte, mas a dele. Pensou tudo em uma fração de segundo, sentindo a pressão dos dedos machucar sua garganta e impedir a passagem do ar. A faca, ainda em sua mão direita, sussurrava em sua consciência.

Livrou-se, por fim, do tormento ao cravá-la na barriga do marido que urrou feito bicho, bem alto, olhando com olhos esbugalhados, incrédulos para ela.

Caiu ao chão a gemer e sacudir.

Rosa armou-se de toda frieza e coragem para retirar a arma de seu abdome e enfiá-la com força em seu peito, culminando com aquela vida miserável e cruel.

Não chorou. Pensou rapidamente e resolveu correr pelo sítio, olhando por toda parte, até que atrás do galinheiro encontrou local ideal para levar a cabo o seu intuito.

Pegou enxadão, pá, e trabalhou arduamente para alguém mal alimentada que vinha sentindo vertigens e náuseas, havia tempo.

Cavou muito até que um buraco de considerável tamanho apresentou-se ao entardecer, no crepúsculo do dia em que morria seu transtorno e nascia sua tranquilidade. Não imaginava sua vida depois daquele dia, sabia somente que seria melhor que o inferno em que vivera.

Arrastou o defunto até a sua morada definitiva, com muita dificuldade, passando por degraus, porteiras, paus, pedras, plantas e sentiu enorme prazer ao ouvir o barulho seco do corpo chegando ao fundo.

Jogou terra em sua cara. Bateu com a pá e, ofegante, teve um desejo: correu à casa, pegou carinhosamente o caroço do abacate e o enterrou no solo fofo, por sobre a barriga de Licurgo. Regou a semente e foi dormir, sonhando com o filho que começava a gerar em seu ventre de mulher determinada e livre.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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