POR ENTRE AS LINHAS

Entrelinhas é, por assim dizer, aquilo que se esconde entre as linhas. Conceito aparentemente óbvio, mas de grande importância, porque fala daquilo que normalmente passa quieto entre um neurônio e outro de cérebros distraídos. Daí a necessidade de se falar a respeito.

Sua função (a das entrelinhas) não é passar despercebidamente pelos olhos dos desatentos, porque isso é fácil. Aspira sim, atingir a inteligência dos astutos, com toda sutileza que a artimanha literária é capaz de lhe conferir.

Destaque para o fato de não se tratar de uma aula de português esta reflexão, tampouco tem a pretensa ideia de ensinar o padre nosso aos vigários de uma academia de letras. Entretanto, quantos escritores escrevem um texto rigorosamente destituído de qualquer mensagem escondidinha nos recônditos de seu contexto? Poucos, quase ninguém se aventura. Talvez fosse até interessante escrever algo assim, isento de qualquer intenção pedagógica, livre de mensagem, que não pretendesse transmitir nada ao leitor cheio de vontade de aprimorar o intelecto. Um texto polêmico justamente por não acrescentar nada de cultural, de sábio à mente ávida de quem lê. Claro que, tirando o rico conteúdo das entrelinhas, sobram as linhas, propriamente ditas, por meio das quais também se diz alguma coisa.

Lamentável que isso tenha ocorrido, afinal: lembrar que entre as entrelinhas estão elas, as linhas. Cai por terra, então, o projeto do escritor que pretendia encher de vazio a mente leitora, a mesma que se imagina dona de muita esperteza num mundo repleto de entrelinhas, cujo teor, às vezes, lhe foge à compreensão.

Súbito, uma ideia que o computador insiste em acentuar, vem à tona para deduzir que é mesmo necessário que haja indivíduos incapazes de perceber toques sutis numa obra. Porque, do contrário, as informações localizadas ali, naquele universo, participariam do seu entendimento e fatalmente as entrelinhas não seriam motivo de discussão. Vãs palavras, pois, se tornariam estas.

Mas sua presença é constante, desfilando vivas diante de olhos morosos, sem se fazer notar. É preciso estar atento para apanhá-las, pois a vida é repleta delas e, para entender a vida é necessário desenvolver a prática da percepção, da descoberta das entrelinhas. Apesar de que, verdade seja dita, é esforço demais para as mentes desavisadas. Extenuante ler e pensar a respeito, admito. Mas fundamental para se ampliar os horizontes, enxergar além. Até porque, convenhamos, inteligência é isso, o poder de perceber. Perceber aquilo que a preguiça mental se empenha em manter escondido.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑