Eu era menino quando minha mãe recebia, contrariada, a frequente visita de vendedores de enciclopédias que passavam de portão em portão para exaltar as maravilhas culturais das coleções que muitas vezes sequer haviam folheado. E, ao contrário do que acontecia ao receber profissionais do ramo que ofereciam outros produtos, eu ficava eufórico, porque aqueles insistiam sempre em deixar o objeto de seu trabalho como amostra, só por alguns dias, com o descarado intuito de seduzir a família e, desta forma, efetuar a venda. Eu sei que enciclopédia para aquele que acordou adolescente no século vinte e um, tem a aparência de uma máquina de escrever, ou um disco de vinil. Mas como eu amava aquelas caixas que continham livros, belos livros, repletos de conhecimento que faziam brilhar meus olhos e reiterar a minha esquisitice, proclamada pela molecada do pedaço que tinha algo de peculiar aos jovens costumes dos dias de hoje: o ardente desejo de conservar à distância a palavra escrita.
Na época, todo coroa lembra, havia sempre um campinho perto de casa, templo da brincadeira, onde se jogava bola, fubeca, empinava-se papagaio (pipa era somente um dos modelos), enfim, toda sorte de algazarra aeróbica um tanto diferente do ritmo de vida contemporâneo cuja forma de entretenimento mais apreciada é, sem dúvida, a parafernália eletrônica e digital que fornece. E naquele tempo não merecia perdão um sujeito que, de livro em punho, dispensava os amigos na porta de casa, dizendo que só aceitaria o convite para os brinquedos de rua depois de terminado o intrigante capítulo. Francamente!
Até um livro didático de Geografia, é, desses solicitados pelo professor, eu li, logo no início das aulas, tão entusiasmado eu fiquei com sua beleza e riqueza de detalhes. Quem, naquele tempo, e agora principalmente, em pleno vigor de suas faculdades mentais, lê, num tapa só, um volume adotado no início do ano letivo?
Minha paixão pela palavra escrita, enfim, levou-me a viajar do fundo do mar ao centro da terra com Júlio Verne; aos encantamentos baianos com Amado; à irônica posteridade de Machado; conferir a genialidade humana com Drummond… E com um sem fim de maestros das letras, brasileiros ou não, me render à magia da criação literária.
De tudo li um pouco. Não me escaparam, inclusive, matérias científicas, físicas e metafísicas, de revistas, jornais e de qualquer publicação com assuntos de cunho intelectual que me passaram pelos olhos.
Habituei-me à leitura, ou antes, nasci habituado a ela.
Quando a rigorosa professora de Português de outrora, eu bem me lembro, exigia que cada aluno lesse um livro para falar ou escrever a respeito, eu sempre lia aquele que me havia sido designado e mais algum outro que o relapso colega de sala não dava conta de ler. Tive que dar explicações, até, sobre o assédio de algumas meninas, certa vez, que muitos pensavam ser de ordem romântica e na verdade era também simbolista, naturalista, parnasiana…
Algumas décadas, enfim, se passaram desde o meu primeiro contato com a leitura, proporcionado pela minha doce cartilha Upa Cavalinho que o maldoso construtivismo encarregou-se de sepultar. Desde então, não mais parei. Foram obras compradas, doadas, presenteadas, emprestadas, e a estreita relação que se formou entre nós criou um fascínio que me deixa perdido em meio a muitos títulos, livrarias afora, sabedor de que há um universo a ser explorado dentro de cada um, e que tudo começa com um mergulho em suas páginas, de onde não é possível retornar sem qualquer coisa a mais na bagagem cultural. Sempre.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
Deixe um comentário