CASTELO DE CARTAS

O prédio antigo da movimentada avenida era mesmo firme, de paredes bem conservadas. Sem rachadura qualquer, ou com alguma fissura insignificante só no reboco, a tudo resistiria, endossavam as pastilhas do acabamento externo. As décadas acumuladas sobre seus ombros davam-lhe certo charme de edifício de área central da cidade. E as pessoas que adentravam o recinto, subiam e desciam pelas escadas gastas, e não se davam conta do tempo transcorrido. Claro que não consideravam os anos passados daquela construção. Pouca gente pensa na idade de um prédio, de uma rua, ou do que quer que seja além da sua própria. Talvez a correria do dia-a-dia impeça reflexão mais profunda a respeito.

A moça era desse tipo, voltada ao trabalho, indiferente ao espaço físico ocupado pela sua profissão. Tirando um ou outro comentário sobre o calor, algum mofo ou o carpete gasto, como é de praxe, era ali que batalhava o salário e sonhava crescer como sonham as pessoas que pulam cedo, e estão sempre discutindo a possibilidade de uma nova e mais vantajosa maneira de se ganhar o sustento. Era alegre a jovem que se casara não tinha muito tempo. Seu marido era daqueles que não dão sossego ao seu par. Sempre que possível, com o celular a postos, fazia chamadas ou mandava recados para o seu amor que não haveria de se atrasar para o jantar e para a noite que sempre prometia.

Mas esse amor estava por um fio no amanhecer daquele dia diferente, que nasceu como qualquer outro e não acabaria como os demais, ainda que o casal nem desconfiasse. Assim, quando acordou, a menina cumpriu o ritual diário do banho seguido de café com leite, pão e manteiga, e ganhou a rua. Não podia imaginar que estava no fim. Que romperia todos os laços de amizade e afetos mais íntimos, dali a poucas horas. Enquanto caminhava dedicou especial atenção às vitrines com roupas e sapatos elegantes, como é peculiar ao sexo feminino. Leu as manchetes dos jornais, na banca, sem suspeitar das principais notícias do dia seguinte. Teve cuidado ao atravessar ruas de trânsito intenso. Cumprimentou a todos na chegada, esbanjando simpatia. Preocupou-se com os afazeres como uma operária na rotina da vida. Almoçou com os amigos. À tarde, nada de especial, a despeito do serviço que se avolumara e pedia mais algumas horas à funcionária do setor, sempre tão dedicada.

Missão cumprida, afinal, com presteza pedia um bate-papo pela internet com o maridão, dando por encerrado o dia cansativo. Conversa breve, subitamente interrompida pelo forte estrondo que assustou a menina, e não lhe concedeu tempo sequer de pensar a respeito e descobrir que o edifício vizinho desabava sobre o seu. Os dedos não puderam mais correr o teclado e sua voz se calou.

O homem, estarrecido diante da televisão, ainda segurava o celular sem entender a ausência de resposta no computador e o silêncio do telefone. Recusava-se a acreditar naquilo que via e ouvia. O mundo desmoronava sobre sua cabeça tal qual desmoronara o prédio, onde seu amor fazia serão.

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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