CHUVA BENFAZEJA

Faz frio e a garoa é intensa. Venta muito, e o clima, considerado mau para alguns, deixa aquele sentimento de aconchego dentro de casa, do carro, da roupa, de nós mesmos. Tem essa função, afinal, o céu cinzento, de nos conduzir diretamente à introspecção, viagem que pode ser longa, cheia de idas e vindas no tempo de uma vida que se foi e que se vai a cada segundo, carregada de acontecimentos que fazem bater forte o coração, nem sempre alegre, não necessariamente triste.

As árvores balançam e as gotas escorrem uma a uma, pelo vidro, no trânsito lento. As pessoas passam depressa pelo passeio, cabeças baixas, mãos segurando o casaco apertado no peito, fustigadas pela chuva fina. Alguém, na outra calçada, briga com o guarda-chuva que virou do avesso, expondo sua intimidade metálica. Parece até que o frio nunca mais passará e que dias de sol não mais voltarão. O mesmo sentimento que bate quando o calor escaldante nos enche de vontade nenhuma, e o desejo de jogar fora a roupa do corpo remete o homem à sua origem de bicho. É engraçado como esses momentos, tanto um como outro, fazem lembrar aqueles filmes que a TV, volta e meia, apresenta em câmera super rápida, que fazem as nuvens e o sol passarem velozes pelo firmamento. Da mesma forma que a vida tem passado ligeira, enganando o menino distraído que pensa ter tempo para ficar de boca aberta fitando as estrelas enquanto as oportunidades desfilam, tal qual as nuvens, despercebidas. Recuperar, pois, o que ficou para trás é utopia daqueles que ainda sonham com a possibilidade de construir aquela máquina de voltar os anos.

Na avenida, a lenta procissão de lanternas e faróis lembra que há muita gente dentro dos veículos e fora deles. Esta, inclusive, se atropela nas vias públicas para fugir da umidade do fim de tarde. Frenesi de atitudes mecânicas que faz pulsar a cidade. Um renovar sem fim dos mesmos gestos, até que tudo passe e o ser desapareça, dando lugar ao novo, aliciado, desde tenra idade, ao mesmo comportamento de aflição, desespero de sempre concorrer, consumir e sobreviver.

Mas é preciso fugir do ataque pluviométrico que fertiliza a alma e hidrata o corpo. Corpo, enfim, cheio de fluído nas veias e entranhas, fluído que brota no calor, fluído que é expulso da bexiga, que brota dos olhos, que é liberado pelo prazer… Somos água, afinal! Se nos espremerem, escorremos! Se ficarmos ao sol, evaporamos, e o ar fica impregnado do aroma de nossa existência. Tomara que seja bom.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑