UM TIRO PELA CULATRA

Trovões, relâmpagos, ventania, e muita chuva, são efetivamente elementos indispensáveis quando o assunto é filme de terror. Tudo isso, claro, realçado pelo soturno período da noite que deve servir de cenário no roteiro que coloca o mal como protagonista, como personagem central, sem o qual o medo deixa de ser.

Então, a platéia toda arrepiada, devorando freneticamente a pipoca, assiste ao desenrolar da trama, sensível ao sofrimento impingido às vítimas de mentirinha. E sofre como se sentisse na carne o fio da lâmina que fere na representação.

Eu pensava seriamente nisso quando empreendi subida ao telhado de casa com o intuito de levantar a antena que caíra com a força do vento. Eram os capítulos finais da novela da sogrinha e, na ânsia de bajular a doce senhora e, quem sabe, arrancar-lhe um sorriso de agradecimento pelo sacrifício, eu não medi esforços, ignorei o aguaceiro que despencava na minha cabeça, e subi.

O clarão dos raios que cortavam o céu a todo instante, auxiliava na localização de canos e fios em meio à água. E o destemido chefe de manutenção de residência, a despeito da precariedade da situação, esforçava-se para melhorar a imagem da TV e, na sequência, a sua própria.

Preocupava, contudo, o insucesso da empreitada, face à violência do clima. Mesmo assim, o otimismo fez com que eu mantivesse o propósito de retirar a carranca da sogrinha diante da iminente perda do capítulo. Subi, avaliei, iniciei o trabalho e desci para apanhar as ferramentas necessárias. Até aí, somente muita água, vento, e clarões amedrontadores a aporrinhar o hábil antenista.

A escada, utilizada para aventuras acima do solo, era de madeira e já não gozava do vigor físico dos primeiros tempos. Mas era digna de confiança. Lá isso era. E, como se fosse de concreto, sustentava-me bravamente em nova escalada rumo ao piso superior de onde a água esparramava por todos os lados. Prudente, eu só pensava no cuidado que deveria ter para não escorregar.

        Mas como no terror das telas, o perigo espreita em cada canto, e lá estava ele na fragilidade do último degrau que, depois de anos de fidelidade, traiu-me, o frouxo, quando lhe pareceu demais o meu peso.

Fui, então, conduzido ao solo pela implacável ação da gravidade, e ali permaneci prostrado, cheio de dores por todo o corpo, com a consciência também a doer por ter falhado miseravelmente no intuito de alegrar um coração de sogra e ganhar uns pontos no meu depreciado currículo de genro. Ao invés disso, consegui pontos, muitos pontos na cabeça, além das costas em frangalhos, e escoriações aqui e ali.

         Os sábios costumam ensinar que se deve tirar proveito de cada situação vivida para com ela aprender. E o que eu aprendi depois de uma noite no hospital e dois meses de molho, é que novelas vem e vão e, ao contrário da realidade, sempre acabam bem. Apesar de eu estar vivo para contar a história, o que é uma felicidade imensa, ainda mais completa por ter o acontecimento, de alguma forma, servido para tornar feliz a simpática velhinha que desfrutou da oportunidade para rir da minha cara e insinuar que inteligência, de fato, nunca foi a minha especialidade. Ponto para ela.

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

 

 

 

         

 

 

 

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