A luta cotidiana de um professor não se resume a giz e diários. Para espanto geral, é regada também de acontecimentos que fazem da sua profissão um misto de desânimo, dor de cabeça e aventura. Diga-se de passagem, um tipo de aventura constante no dia-a-dia de quem lida com o ser humano nos extremos de sua existência. Trocando em miúdos, ou trabalha com criança, ou com adolescente, ou com ambos. Missão nada fácil por se tratar de duas fases críticas da vida, em que os escrúpulos nem sempre são observados, e a energia se apresenta numa amperagem que normalmente deixa de lado o bom senso e a educação. Quadro ainda mais negro por se tratar de uma clientela que está dentro da escola somente porque é obrigada. Repudia, sobretudo, assuntos de cunho intelectual, razão mais do que suficiente para fazer manifestar a agressividade latente, sempre propensa a explodir no lombo dele, do professor, claro. Impulsividade que brota de pessoas de tenra idade, de agora e de outras épocas, essa catarse tende a bloquear a mente, dificultando a aquisição de conhecimento, até porque o jovem, nos dias de hoje, está mesmo habituado ao fácil e ao fútil, rejeitando com veemência tudo que exige um pouco mais de seu cérebro.
Logicamente que nem só de aporrinhação vive o professor (entenda-se professora também), há muitos lances nesse jogo que incita e sacode os nervos. Dia desses vivi uma dramática experiência ao entrar para uma dobradinha numa sexta série (só esse profissional sabe o que é uma dobradinha). Não bastasse o alvoroço normal, uma pomba, inocente exemplar do reino animal, acirrava ainda mais os ânimos, pousada que estava tranquilamente sobre o ventilador. A molecada afoita procurava qualquer objeto que pudesse ser arremessado contra o impostor, e as meninas limitavam-se a gritar. Depois de conter a turba, convencendo-a da intenção nenhuma, do pássaro, comecei a aula. Tudo absolutamente normal até que o bicho resolveu deixar o conforto do seu novo ninho para dar uma refestelada pela sala. Desnecessário narrar o resultado.
Em outro momento assisti, perplexo, ao desenrolar de um conflito entre duas adolescentes que se atracaram pelo chão da sala. Profissão ingrata, afinal, essa de tentar levar o conhecimento àqueles que, volta e meia, também nos brindam com péssimas notas, comprovando como foram vãs nossas palavras. Brigas, pássaros, resultado precário no aprendizado, muitas culpas, enfim, atribuídas à pessoa que escolheu como ofício ensinar.
Mas o barco não afundou ainda. Foi justamente num daqueles dias em que a frustração é companheira, que me vi obrigado, eu que amo a arte de escrever, a interromper minhas divagações ao ouvir uma colega que lia para outra um poema feito por um aluno. Isso mesmo, um aluno! Fiquei atônito com a beleza da construção, e as palavras escolhidas a dedo. Então, naquele momento, ressurgiu em mim a vontade de retomar o trabalho e esquecer as desventuras. É, professor não tem jeito!
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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