TEMPO IMPLACÁVEL

Dentro do carro estacionado numa rua central da movimentada cidade do litoral paulista, eu observava uma velha senhora sentada numa confortável cadeira, na varanda da casa antiga, destas de telha francesa, construída nos fundos do terreno, como era costume em outros tempos. 

Na frente, grama, calçada e algumas flores, davam o tom de aconchego ao lar, em quadro pintado por artista que não poupara esforços no quesito harmonia. Harmonia contrastada agora pelo barulho proveniente de um veículo que ali se encontrava, dentro do quintal, a poucos metros da imagem terna que em nada fazia lembrar o ritmo ensurdecedor. Era um som horrível que algumas pessoas insistem em chamar de música. Outras nem lhe conferem o título simplesmente por nunca terem ouvido uma, razão de sobra para desconhecerem o seu significado. Chamam-no somente, som. De fato, som é o que é.

Com certeza o carro não pertencia à mulher. Era doce demais a figura para ter parte com o diabo e desfrutar daquele ruído infernal, provável curtição de algum neto.

Ocorreu-me, então, refletir sobre a passagem do tempo: a casinha, coitadinha, encravada entre prédios de bancos, lojas famosas, em rua movimentada, provavelmente desfrutara, um dia, de solidão em local ermo, ainda que no centro de uma vila de pescadores. E a velha, então jovem senhora, não sonhava com um futuro que haveria de consumir sua paz e encher seus ouvidos com tamanha dose de poluição sonora.

As pacatas avenidas da época, sem pavimento, eram chamadas de estradas, e não facilitavam muito a chegada de pessoas oriundas dos grandes centros que desejavam alcançar um retiro para repousar a mente. Claro que, uma vez lá, o descanso era certo, tendo em vista que tranquilidade é o que não faltava.

A passagem dos anos, contudo, fez crescer o progresso local, asfaltou ruas, tornou possível o acesso para um número muito maior de gente que trouxe riqueza, sujeira, e o alarido das grandes cidades para desbancar o silêncio em que nasceu a casa da senhora que ainda insiste em desfrutar do aconchego da grande varanda em meio ao movimento de carros e transeuntes.

Eu continuava ali parado, esperando por alguém que fora às compras, quando a mulher deixou a cadeira e se dirigiu ao portão como se fosse de encontro a meus pensamentos para partilhar comigo sua história. Talvez pretendesse ilustrar minha reflexão com seus comentários: “Sim, é isso mesmo! Alguém pensa sobre isso, sobre o sossego que deu lugar ao caos em nome do progresso. Teríamos, enfim, caminhado para a evolução ou corrido dela?!” Esteve ali por alguns instantes a espiar o povo, local e visitante, que passava para lá e para cá, indiferente a ela, possível pioneira do lugar, entregue agora às lembranças, cheia de saudade.

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

 

 

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