VOVÓ NÃO É FÁCIL

A velha quando nasceu talvez tivesse recebido “A Velha” como segundo nome se soubessem que passaria fácil de um século de idade. Um século! Expressão que enche a boca quando o assunto é o número de primaveras de alguém. Soa até maior do que cem anos.

Mas ela veio para este mundo predestinada a isso, à longevidade. Se tivesse sido observada, sua estrutura genética de outrora provavelmente revelasse a caminhada que haveria de empreender por esta terra antes de fazer de seu subsolo morada definitiva do corpo exausto.

Sentada em sua poltrona, vovó, às vezes, é cercada de paparicos como se fosse um bebê, a despeito da pele vincada e flácida. Tratam-na com a mesma atenção exagerada que se dedica a uma criança de colo e, ainda, teimam em subestimar sua sanidade mental ao perguntar-lhe se é capaz de reconhecer este ou aquele: “A senhora sabe quem é esta pessoa, vovó?” E ela, pacientemente, pronuncia o nome do sujeito, o grau de parentesco e, de sobra, pergunta sobre a saúde de Fulano e Beltrano, seus parentes.

Magrinha, vovó impressiona pela aparente fragilidade, embora sua constituição de ferro seja capaz de botar inveja em muita coroa de aparência saudável.

Um episódio que põe em destaque tamanha resistência, quase matou de susto a família quando, no auge dos seus noventa e seis aninhos, a velha resolveu dar uma refestelada porta afora e precipitou-se do alto da escada. Tudo que conquistou nessa aventura foi um galo que cantou imponente no topo da testa, só para dar testemunho do sinistro.

Mas ela é caprichosa e não se rende. Aguardou, pois, seu centésimo terceiro aniversário para extrapolar na apreensão concedida às pessoas ao seu redor. Amparada por alguém enquanto caminhava, tropeçou no ar e foi ao solo, levando consigo o outro que viu o próprio corpanzil esmagar a pobre ao cair sobre ela. Todos, então, duvidaram do seu restabelecimento quando a viram no hospital, debilitada como um pardal atropelado por um caminhão. Acreditaram que era mesmo chegada a sua hora. Qual o quê! Vovó deu a volta por cima e fez troça daquele que se preparou psicologicamente para pegar na alça do seu caixão.

Claro que o encontro de sua testa com o piso não a livrou de algumas manias (as de sempre), acúmulo de décadas de vida neste mundo que sempre remete à imperfeição. Apesar de que sua mente parece não se deixar contaminar totalmente e resiste impávida a tudo isso. Sem dúvida, a lucidez impera soberana naquele cantinho, parte que lhe cabe no seio do convívio familiar.

Logicamente que, como todo velho, a boa senhora gosta de contar histórias. Talvez porque tenha muitas para contar e também pelo fato de não mais participar das conversas dos demais que discutem coisas alheias ao seu entendimento. E já que é preciso marcar presença com algum assunto no bate-papo diário com os seus, por que não falar de coisas pertinentes ao seu mundo?

Entristece imaginar que qualquer que resolva viver um pouquinho mais está sujeito ao gueto, àquele lugar reservado às gerações de antigamente, que não conseguem mais se sociabilizar porque permanecem com um pé no presente e outro no passado.

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA  

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