Desaforo é morar numa cidade praiana repleta de turistas nos grandes feriados, que trafegam pelas ruas em caçambas de camionetes, no teto delas, por sobre as janelas de automóveis em geral, em carrocerias de caminhões, porta-malas de carros hatch back (balançando as perninhas do lado de fora), enfim, em locais que os gênios da indústria automotiva sequer imaginaram que um dia gente haveria de se acomodar confortavelmente. Pensam até os projetistas da área, em instalar bancos nos lugares da preferência dos compradores de veículos destinados a trafegar no litoral. Estratégia de marketing, sabe? Afinal, os comerciais de TV exaltam todos os itens de conforto dos carros, como o espaço interno, por exemplo, que enche de orgulho o fabricante que nem percebe que o externo é bem maior. E é pensando nisso que essas pessoas passeiam assim, ao ar-livre, em que até o aparelho de ar-condicionado gastão é dispensado por não oferecer ventania tão refrescante.
Nada contra a alegria, que fique bem claro. A razão de sentir-se desaforado este escritor morador, contudo, é decorrente do fato de ter ele estado dirigindo meio distraído, numa época dessas entre Natal e Ano Novo, em baixa velocidade, sentado de forma convencional no banco de seu possante, quando acabou por ferir os preceitos da lei que obriga os ocupantes normais de carros também normais a utilizar o cinto de segurança. Divertia-se, coitado, observando o movimento repleto das mais tresloucadas formas de se viajar sobre quatro rodas, quando um policial atento flagrou o delito e procedeu à lavra da multa, com o rigor que a autoridade lhe confere. Absolutamente compreensível, a despeito da pontinha de revolta, presença marcante no entendimento do infrator que nunca ouviu falar de alguém autuado por viajar no capô de sua máquina. No máximo, um pito que não resolve. Nada contra o oficial, lógico, que com certeza não deve ter lido qualquer parágrafo na literatura legal que fale da obrigatoriedade dos indivíduos viajarem no interior do carro. Mas o desavisado motorista que passeava comportado, este sim recebeu em casa uma educada cartinha, comunicando a falta grave. Não que se deva atropelar a regra, mas diante da descontração motorizada em dia de festa, flexibilidade em lugar de truculência até que seria de bom tom. Ou então emendar na lei autorização para todos utilizarem a janela do carro como local seguro de se passear, seria atitude da mesma forma simpática ao público em geral. Com a devida sanção das autoridades de conduta impecável desse país, evidente.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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