Jenifer não gosta da mãe. Diz que é insuportável e atribui a ela outros adjetivos nada condizentes com o perfil materno, todo ele dedicado e bondoso das propagandas de maio. Carrega, a adolescente, muita mágoa no semblante entrecortado de desesperança quando retrata o cotidiano violento do bairro onde vive com a família composta de irmão, irmã, e a carranca daquela que a concebera e que agora passa o tempo a lhe conferir culpas, calúnias e demais impropérios. A menina não sabe por quê. Jenifer também torce o nariz ao descrever a figura do pai que, segundo suas palavras, não presta e nada tem a lhe oferecer a não ser desgosto e vergonha pela aversão ao trabalho e excessivo apego à cachaça. Melhor que fique assim, como está: bem longe. Até porque, cultivara ele, desde sempre, o pouco salutar hábito de estapear a mulher em grandes ou pequenas contendas conjugais. Não que ela não merecesse, mas o consenso geral sabiamente diz que violência gera violência, e foi numa dessas ocasiões que a mãe calou momentaneamente a valentia do marido com uma faca que fez considerável estrago em sua barriga. Claro que ao deixar o hospital, o pústula tornou à casa e espancou a agressora, aproveitando-se da sua distração. Atitude que culminou em definitivo com a crise no casamento. Jenifer, afinal, não consegue compreender a intolerância de gente que se une debaixo do mesmo teto, faz filho feito bicho, e se odeia. Em sua mente de menina paira um conceito ruim das relações humanas, sociedade, ambiente familiar, até mesmo sexo. Fala, determinada, sobre as coisas da vida que lhe parecem enfadonhas e conduzem ao desespero e à morte prematura. Não sonha, porque seu mundo é feio e sonhos costumam habitar almas que convivem com o belo, ainda que à distância. A garota não busca o conhecimento, justamente porque a parca sabedoria não lhe permite entender que é a saída, o caminho para a liberdade. Passagem meio estreita, é certo, mas a única. E a pouca idade que espalha no ar aquele burburinho cheio de alegria inconsequente, esta também não lhe atrai, e a falta de experiência somada às incertezas de uma mente que começa a descobrir e se descobrir, deixam Jenifer sem rumo, e seu olhar denuncia um espírito jovem oprimido num cantinho qualquer, destituído de uma só migalha de perspectiva, tão fundamental para o crescimento humano. Reúne, pois, todas as condições para ser conduzida à sarjeta, embora a origem conturbada tenha encontrado dificuldade em obter êxito nessa empreitada, já que a menina, a despeito do desânimo, da total ausência de entusiasmo, ainda consegue extrair um pouco de aprendizado que lhe é oferecido por gente habituada a ver a vida sob outro ângulo, um tanto mais sensato, talvez. Oxalá sua personalidade forte venha a lhe possibilitar a percepção de um mundo paralelo ao que está habituada. De vida dura sim, mas cheia de possibilidades que seu olhar míope até agora não conseguiu enxergar. PROF.RODOLFO DE SOUZA
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