ESTUDANTE NOTA 10

Ninguém presta atenção na aula e eu não consigo entender a matéria, porque eu também não presto. Não presto atenção porque os demais alunos não prestam e bagunçam o tempo todo. Por isso dou muita gargalhada e também porque adoro exteriorizar minha vulgaridade a todo instante, claro.

Eu jogo papéis, pontas de lápis, chicletes e demais detritos no chão porque todos jogam e fica mesmo uma sujeira danada a sala.

Eu nem tiro o material da mochila, porque se não pretendo fazer a lição…  Celular é proibido, mas a gente ignora.

Eu não vou com a cara desse professor, por isso eu nem ligo para aula dele, nem daquele outro ou daquela chata.

Eu brinco de bater no meu amigo porque ele bate em mim. Só que às vezes dói. Mas eu adoro. Outro dia o professor, esse intrometido, pediu que o moreno do segundo ano soltasse meu braço que torcia com força, e eu briguei com o professor. Por que ele tinha que se meter?

Eu peço para ir tomar água e fico passeando pelo pátio. Volto e, em seguida, peço para ir ao banheiro com a justificativa de ter que devolver a água que tomei.

Enquanto copio a matéria (o que raramente acontece), ouço música, converso e ainda presto atenção na farra. Eu e os outros. Tanto é que se o professor escrevesse a mesma coisa todos os dias, a gente nem ia reparar.

Gosto de vestir blusa de alça, bem pequena, com a barriga de fora. Lógico que o horizonte dos países baixos tem que aparecer também. Às vezes o inspetor ameaça mandar-me para casa, então abro finalmente a mochila, pego a camiseta do uniforme, visto-a para despistar a autoridade escolar, depois volto a guardá-la.

Gosto de andar pelos corredores só para conversar e vadiar.

Gosto de gritar de maneira bem estridente diante de qualquer provocação porque o que quero mesmo é aparecer.

Gosto de falar palavrões porque é uma forma de expressão que indica meu estado de espírito. Talvez eu não saiba mesmo me expressar de outro modo.

Gosto de cantar funk durante a aula. Ah! Isso irrita mesmo.

Não suporto escrever no caderno, mas adoro escrever e desenhar na carteira. Ah! Como é bom arrastar cadeiras e carteiras que não têm borracha nos pés, fazendo aquele barulho infernal que sacode o cérebro do professor!

É muito divertido, também, vê-lo falar e falar e pedir silêncio e toda a sala a conversar e brincar e gritar, sem dar a menor, a mais ínfima atenção a ele. Menosprezo com requinte de crueldade.

É muito bom assistir às guerras de papel, de borracha, de giz e apreciar as contendas dos meninos que se atracam até…

É hilário quando o professor, após tentar explicar a matéria, diz o clássico: “alguma pergunta?” e alguém levanta o braço, dizendo: “posso ir ‘no’ banheiro?”

Fico sensibilizada quando, por obra divina, ou por preguiça mesmo, a turma fica calada, e o professor é interrompido em sua explicação por alguém que despacha um sonoro bocejo, desprezo declarado pelo profissional da educação e seu, só seu, assunto.

Quer ver o professor irritado é cruzar os braços e me recusar a fazer qualquer atividade simplesmente porque esqueci em casa o caderno, ou porque a caneta estourou (caneta de aluno estoura!), ou ainda com a desculpa de que o caderno acabou, ou porque foi emprestado a uma amiga de outra sala que não devolveu. Enfim, as mais descabidas mentiras.

Todo aluno que se preza tem que andar com um pequeno fone de ouvido. Seguindo, inclusive, a teoria do velho Charlie, é bem provável que as gerações futuras já nasçam com o fone como prolongamento da orelha. Assim como uma corcunda há de substituir a mochila e, ainda nascerão meninos com a cabeça em formato de boné, capricho da nova estrutura genética.

Às vezes copiamos a matéria da lousa só para tê-la no caderno e nos iludirmos de que com o caderno em dia, aprendemos algo.

Acho sensacional responder mal ao professor e ver aquela cara de bobo, nervoso e impotente diante da petulância amparada pela lei.

Sabe, felizmente a ignorância não nos permite perceber que as forças ocultas do país adoram esse nosso comportamento que lhes assegura a manutenção do poder.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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