SOL NOSSO DE CADA DIA

Ensinava a importância de se apanhar todo o sentimento contido na crônica que o artista caprichosamente escreveu para nos capturar pela inteligência aguçada. Falava do Rubem Braga e sua habilidade em conseguir aflorar na pessoa que lê a sensação de dividir com ele o momento fotografado, impresso no papel por meio de palavras.

Os olhos curiosos, a princípio, pareceram não entender onde eu queria chegar com aquela conversa de sentir rica a literatura do texto. Ora, basta que se compreenda o que está escrito em bom português e pronto. Crônica, poema, romance, dá tudo no mesmo – pensamento de leitor principiante, jovem demais para alçar voo tão alto.

Mas estavam todos ali, rostinhos redondos, em busca de algo novo, por certo presente naquele amontoado de palavras, repleto de muito significado a mexer com cada um. Assim ensinava o professor que procurava mostrar-lhes algo absolutamente estranho, transparente, que a minguada experiência com a palavra escrita insistia em esconder. Quanto mistério num texto de semblante banal que procura atingir quem lê! E atinge em cheio! Pega-o de tal maneira a ponto de fazê-lo se apropriar do olhar do autor para apreciar o quadro descrito.

Mais indagações nos rostos atentos.

Lentamente, porém, a meninada se manifesta com as mais desencontradas opiniões. Próprias da pouca idade, diga-se de passagem, mas verdadeiras. Iguais às de gente grande. Aquelas que, uma vez estimuladas, são capazes até de mostrar alguma compreensão e algum amor pela obra discutida. Percebem, inclusive, que foi escrita para ser lida pelo coração. Que arte é assim mesmo: enxerga-se com os olhos da alma. Certamente que tudo isso foi cochichado em cada ouvido, produzindo ali resultados surpreendentes.

E o envolvimento? Este foi tamanho que fez surgir aqui e ali tímidos sorrisos, anunciando que a conversa não se transformara, afinal, em vã tentativa de esclarecer a mente de pouca leitura. Fora mais do que isso: o ensaio para uma reação que culminara com o desejo de saber mais. Provavelmente a surpresa pela descoberta tenha proporcionado isso.

Então, sob essa atmosfera literária, a sensibilidade geral, de repente, foi sacudida por uma imagem de fim de tarde que veio só para ilustrar tudo o que vinha sendo estudado: à janela, um grande e belo sol vermelho tocando o horizonte, avisando que a noite era chegada, encheu de devaneios a conversa. E todos, extasiados com a magia do momento, aparentemente sem importância, estiveram bem perto de entender uma crônica que nos remete à reflexão sobre a própria vida.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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