Pressa é isso, o tipo de sintoma que só se manifesta para alfinetar os nervos, torná-los reféns de um poder egoísta que reserva para si toda a atenção que deveria ser dividida com outros assuntos. Não sobra para eles, no momento em que se está atrasado, nem uma única migalha, mesmo quando se tem a consciência de que há muito mais nesta vida do que aquele foco para o qual se dirige o pensamento aflito. Claro que não resolve refletir aqui com tamanha profundidade sobre tema tão delicado, até porque é impossível domar a tensão somente por pensar que não se deve se submeter a ela. Na verdade, torna o apressado cego e surdo para qualquer outro fato, mesmo que lhe envolva diretamente. Tudo que se concebe normalmente como real cai numa outra dimensão, alheia ao entendimento, um mundo paralelo que não nos diz respeito naquele instante de desespero, que pode ser breve ou longo. Corremos sempre com o coração na mesma velocidade, numa disputa ferrenha contra os ponteiros do relógio, rápidos como nunca. Só o ponto para o qual nos dirigimos é possível visualizar em momentos de pressa suprema. Fenômeno que nos rouba, nos destitui de todo o direito de pensar em algo mais que não o tempo que voa enquanto andamos, lentamente.
Semáforos fechados durante intermináveis minutos, caminhões em lentas manobras, impedindo o fluir do tráfego, carros, muitos carros, ônibus demorados e lotados. Tudo também se torna obstáculo quando se tem pela frente um caminho a percorrer até alcançar o local, aquele que nos aguarda com horário previamente estabelecido. E, para chatear, tem sempre aquele desocupado que aconselha sair mais cedo para evitar a correria. Ele não sabe por falta de experiência que é comum perder o controle em dias que parecem curtos, insuficientes, congestionados de compromissos importantes ou imprescindíveis.
Difícil, então, é conter o atropelo quando se está sob o efeito de sentimento tão estressante. Coisas nos escapam das mãos, tropeções são corriqueiros, encontrões… Muitas lambanças, enfim, sujeitando-nos a situações vexatórias, simplesmente por não observarmos, nesses instantes, os perigos e as armadilhas diárias decorrentes da pressa.
Um portão, por exemplo, foi o que bastou para que eu me encontrasse assim, envergonhado e com muita dor. Atrasado que estava para uma reunião, cheguei e encontrei o estacionamento do recinto fechado. Saí nervoso do carro, fechei a porta, e meus movimentos foram tão rápidos que acabei por esquecer dentro do veículo o polegar, a pontinha dele, puxando, ainda, instintivamente.
O ferrolho, destravei sem perceber, alucinado pela dor. Voltei ao carro, estacionei e passei longos minutos apertando, soprando, esquentando, a parte ferida na vã tentativa de conter o sofrimento. E lá estava ela, a velha máxima para fazer valer a sua força ao esfregar-me na cara que a pressa é mesmo inimiga da perfeição. Realidade cruel que não me ocorreu no tempo em que ali estive, contorcido, antes de, finalmente, me apresentar para a tal reunião, com o dedo latejando, a unha roxa e, atrasado.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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