Medo é sentimento comum entre os bichos da Terra. Mas só quem tem uma mente poderosa, tem o privilégio de padecer dele. É o caso único do homem que nasce com medo de cair, de escuro, de barulho e, não demora, adquire outros tantos, a maior parte relacionada a superstições, violência, morte, água, altura, lugares fechados, falar em público… Este último, inclusive, ainda ostenta uma das primeiras colocações no pódio do pavor. Isso mesmo! Falar para muita gente ao mesmo tempo assusta, aterroriza quem se coloca diante do olhar atento da plateia que aguarda quieta.
Logicamente que nem todo mundo é obrigado a botar à prova o seu sistema nervoso nesta aventura. Entretanto, quando a situação assim exige, quando é preciso mesmo se fazer ouvir, quer seja para uma grande massa, para um auditório ou para uma sala de aula, o que há de se fazer? Para os medrosos, a tensão é presença certa que faz suar as mãos, torna o falar inseguro, a voz rouca, pigarrenta.
Em passado distante, bem anterior à modernidade digital, talvez não fosse tão penoso discursar publicamente já que, dependendo do tamanho do lugar, pouca gente ouvia o valente orador que alçava a voz o máximo que pudesse, até ferir as pregas… Vocais.
Contudo, com o advento do microfone o homem passou a forçá-las menos ao conversar com outros homens bem de perto, no pé do ouvido, mesmo estando longe. Isso sem dúvida facilitou as coisas. Ou antes, dificultou, pois há um fenômeno peculiar a este que, num universo eletrônico de equipamentos sofisticadíssimos, até que é dos mais singelos: o poder de fazer gelar a alma das pessoas não muito familiarizadas com o discurso público. Estas que também não são muito afeitas ao uso dele e por isso temem o fiasco de aproximá-lo demais ou de menos da boca, falar muito alto ou muito baixo, gaguejar… Consideram-no desajeitado, pesado, incômodo, até obsceno.
O fato de se tratar de um aparelho utilizado por artistas e demais pessoas ilustres que mostram seus rostos e suas vozes na televisão, ainda faz dele famoso e irreal como tudo que a telinha apresenta, levando os seres comuns a olhá-lo com especial admiração. Quando está sobre uma mesa, tem sempre alguém que se aproxima para tocá-lo como se fosse algo sagrado, só para uso de divindades. Olha de soslaio, bate de leve para ouvir o som que produziu seu dedo, ou ainda dá um soprão, rindo da molecagem.
O microfone tem um quê de mítico que dá certa soberba a quem o empunha com segurança, em contrapartida à paúra de quem o odeia.
Não bastasse esse caráter ilusório que vai além da utilidade prática, o referido instrumento é temido, também, por elevar a voz a um ponto em que todos possam ouvi-la e compreender suas palavras. E palavras bem pronunciadas revelam a intimidade do pensamento aos ouvidos atentos de quem talvez tenha conhecimento suficiente para contestar e debater.
Não que isso denote incompetência de todo palestrante, afinal, somente alguns atendem a essa característica, agravada, às vezes, por aquela timidez que atormenta alguém que necessita expor suas idéias e acaba por guardá-las para si. É o constrangimento de ouvir a própria voz ressoar tão alto a ponto de chamar a atenção da maioria, que o faz repudiar o uso do aparelho. Não suporta a plateia que o observa cheia de curiosidade, e que ele, paradoxalmente, lá no seu íntimo, deseja até que se disperse em conversas paralelas e o deixe falar com tranquilidade para poucos, ou para si próprio. Assim, quem sabe, não necessite desviar o olhar para fixá-lo num ponto qualquer que não seja a multidão de rostos à sua frente.
E esses rostos, transformados num só, são justamente a cara dela, do tormento de quem precisa·discursar, a assistência e sua condição humana, que está do lado oposto ao orador, na confortável posição de ouvinte a apreciar a exposição, cheia de medo também de um dia ter que subir ao palco, empunhar o microfone e falar em público.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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