TRISTEZA SEM FIM

Ouço agora uma bela música que vem do filme que passa na TV, bem pertinho. É algo que lembra amor e drama ao mesmo tempo, assuntos que sempre tocam o coração de quem tem a sensibilidade à flor da pele e sabe que o órgão mais cantado de todos os tempos, aliás, o único, é o responsável por sentimento tão intenso. Mas o miocárdio não produz coisas assim – dirá a lógica da ciência. Não tire do cérebro o comando do pensar e também do sentir – dirão os rinocerontes, mesmo sendo notória a prerrogativa cardiológica de sacudir a emoção humana com batidas, às vezes descompassadas, quando euforia ou chateação tomam de assalto. Isso é incontestável, até porque é ele o músculo mais lembrado, não os glúteos, quando a conversa gira em torno da dor nossa de cada dia. Isso a vida tem ensinado. É fato.

A tristeza, esta que cala fundo no peito, tem sido fonte de inspiração para os poetas de todas as épocas, que falam de romances frustrados, solidão, desamparo, coisas sem as quais seria difícil tocar esse ofício de escrever poesias e canções. Curioso como o sofrimento tem inspirado artistas de qualquer idioma! Fica até a impressão de que se trata de algo positivo, bastante benéfico à saúde de quem busca a criatividade e encontra nas lágrimas inesgotável fonte de inspiração.

Tem até um tipo de sofrimento que tenta plagiá-lo, apesar de ser sem graça e desprovido de qualquer poesia. Um tal que não se pode cantar em prosa, tampouco em verso. É um tipo que ganhou nova roupagem nesses últimos anos, e tem sido levado tão a sério que pode ser considerado o mau do século que ora principia, segundo a humilde constatação deste escritor e de alguns técnicos. Analgésico algum tem o poder de amenizar essa dor, porque é a alma que dói, segundo dados fornecidos por quem dela padece. Tecnicamente deram-lhe o nome de depressão, ou deprê, como querem alguns, os mais íntimos, gente pouco afeita ao salutar hábito de tomar banho, que sempre busca a escuridão, o isolamento, intermináveis pacotes de comprimidos e que, não raro, começa a sentir aquele desejo incontrolável de dar cabo da própria vida.

Várias causas podem contribuir para a evolução do tal desalento. Motivos que não convém elucidar aqui sob pena de transformar o texto num relatório médico, ao passo que ignorá-los também pode sugerir que não há um distúrbio mental, mesmo quando se sabe que há. É o mal da tristeza sem fim, tratável com drogas. Hospício ou cemitério também são opções de refúgio para aquele que não consegue livrar-se dela.

Contudo, essas drogas que tanto auxiliam no controle daquela, não conseguem mesmo evitar a aporrinhação guardada aqui no átrio cardíaco, cultivada dia-a-dia pela insanidade humana e seus devaneios. É perturbação diária que se renova só para chatear e lembrar que toma a dianteira da alegria na eterna disputa entre o bem e o mal. Diacho!

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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