O que impressiona mesmo é ver aquela multidão de rostos bonitos e iguais de um povo feliz a bailar e rir pelas ruas da cidade, em comemoração ao sucesso obtido pelo seu governo no lançamento de um foguete. Teria ele a finalidade de conduzir ao espaço um equipamento meteorológico para espiar as nuvens. Nada de mais o coração transbordar de alegria e festejar. Curioso, entretanto, é tamanha concentração de gente esbanjando euforia por causa de acontecimento tão banal, se é ela habituada à pirotecnia balística de seus líderes. Fala-se até de rojão nuclear, destes que são feitos para consumir a vida por atacado. Genial!
As fotos exibidas pela mídia mostram que essas pessoas não habitam cavernas em locais inóspitos. Vivem mesmo em lugares com edifícios e palácios belíssimos, em avenidas e praças arborizadas. Por certo que também há crianças por lá, com seus cachorrinhos e seus sonhos embalados por discursos que fomentam a violência. Seus pais choram de orgulho e amor pelo chefe que lhes inspira segurança e conquista. Só não lhes disse ainda, o soberano, o que conquistar. Talvez o território alheio, local que foram levados a acreditar que é direito seu possuir. Ou quem sabe a morte do outro é sonho daquela população de cara igual, que não sabe ainda por que deseja que o inimigo pereça, e nem por que o outro é chamado inimigo. É a mente treinada exaustivamente no exercício do ódio que se apega à ideia de que aquele deve ser eliminado. Se lhes for perguntado o motivo pelo qual anseiam por isso, olharão uns para os outros, coçando a cabeça, a se indagarem sobre o quanto é difícil entender esta vida.
Mas não se pode perder uma só palavra dita pelo homem do noticiário, que capricha na retórica oriental para achincalhar o vilão do sul e o vilão mor. Fala como se um soldado seu necessitasse somente de um passo para esmagá-los com as suas botas. E o telespectador baba diante do aparelho, fazendo uso de toda sabedoria oriunda de eras ditatoriais que mergulhou sua pobre mente no ranço da propaganda totalitária. O que fazer se tudo o que pode enxergar aquele povo é o massificante discurso diário a impedir que descubra a existência de outro mundo, cheio de possibilidades, com ideais antagônicos a qualquer conceito que possa ter de felicidade?
E desfilam soldados, e desfilam equipamentos, e desfila imponência, imagens que correm mundo para o mundo amedrontar. Ostentam máquinas de fazer guerra para que todos se curvem perante a sua força. Faz lembrar até filmes de outrora em que a truculência metia a mão em terras alheias com a mesma cara de pau com que dizia ser direito seu conquistar e dizimar o semelhante.
Mas a cusparada de foguetes lá no território inimigo é certa, diz o caudilho. Aquele que durma de guarda-chuva aberto, porque o ataque é eminente – voz que ecoa forte aos generais na cerimônia de inauguração das estátuas do pai e do avô, gerações anteriores à frente da nação. Prática, aliás, comum nesses lugares em que é preciso fixar na mente do povo a imagem heróica dos líderes de todos os tempos. É estátua para cá, fotografia para lá, tudo somado a um eficiente trabalho de propaganda por todo meio de comunicação disponível, que faz o povo acreditar que trilha o caminho mais certo, mais justo, para se alcançar a plenitude, a felicidade prometida pelo pai que tem menos idade que a maior parte dos seus comandados.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
Deixe um comentário