CORPOS FRIOS ALMAS QUENTES

Aconchegante, elegante, são alguns dos adjetivos proferidos quando o assunto é a estação mais fria do ano. Independente do estilo, todos se vestem com a abundância que o clima exige, e a variação fica mesmo por conta da criatividade, da grana, e do bom gosto de cada um. Pequenos detalhes que vão tornando o tempo frio bem mais agradável.

A temperatura também pode subir com as cobertas, debaixo das quais é possível experimentar um gozo supremo (qualquer tipo de gozo) que normalmente faz brotar uma vontade incontrolável de cobrir a cabeça e deixar a hora passar quando é chegado o momento de encarar o batente.

Sensação da mesma forma deliciosa é experimentada pelo efeito de uma bebida ou de uma boa sopa. Comida, diga-se de passagem, é outro item de conforto que nesses meses acalenta ainda mais o estômago do apreciador da gastronomia. Principalmente aquele que não despreza um bom prato nem mesmo quando a temperatura bate os quarenta graus.

Quem não aprecia, pois, papear ou ver TV sob o cobertor após aquele banho gostoso e a janta benfazeja?

E tem sempre alguém para conferir ao inverno o título de estação que deprime. Ao contrário… É a época do ano em que as pessoas estão mais próximas, porque, afinal, permanecem no reduto doméstico por mais tempo, sempre que podem, para conversar ou apreciar a tal bebidinha ao lado de uma ótima comidinha, ainda melhor quando preparada por um bem querer encarregado de colocar tempero na bóia e na vida.

Começo de madrugada, numa dessas noites em que o frio cortante é realçado pelo vento que faz o corpo tremer e empurra o morador para dentro de casa, é que, contrariando as tendências, eu me sentei no banco gelado de um ponto de ônibus somente para observar a noite silenciosa com um ou outro vulto deixando os últimos coletivos ou caronas para, de cabeça baixa, mãos nos bolsos, correr em direção a um número qualquer de uma rua qualquer, a fim de buscar proteção. Só o ar em movimento é música nos ouvidos em horas como estas em que a fina garoa é companheira. Tudo é calma, tudo é quietude no inverno da cidade que dorme. Parece até que durará a eternidade a ausência da luz do dia e o frio. Sentimento que se torna ainda mais inquietante com o balanço das árvores pelo vento, que espalha as gostas da umidade da noite.

Mas todos, enfim, despertam para uma nova manhã que o tépido sol prepara, repleta do barulho de sempre. E, mesmo em épocas de céu encoberto e ar frio, dia é dia, e não pode se dar ao luxo, o bicho homem, de se amoitar só para apreciar o clima, embora o tão aguardado poente logo retorna e tudo é aconchego de novo.

A despeito daqueles que varam a escuridão, trabalhando ou simplesmente perambulando pelas ruas, por opção ou por falta de teto, o inverno é isso, tempo de se meter em lugares mornos que envolvem e agasalham. Como faz a maioria que se esconde, porque, afinal, é tempo de se esconder, ou talvez de aproveitar e desfrutar daquilo que anseia cada ser humano: a oportunidade de se ocultar do mundo um dia, e ficar bem quietinho.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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