PROPINA A DAR COM PAU

Li recentemente num jornal o título de uma matéria cujo teor é mais do que corriqueiro nesta terra de gente séria. Falava de alguém, de alguma forma ligado ao poder, que teria pedido propina em troca de um favorzinho que por certo há de lesar os cofres públicos, só para não perder o costume.                   
Transação que, como todos os negócios transparentes desse país, aparenta absolutamente natural para qualquer cidadão daqui desta ilha da fantasia. Tão natural, aliás, que sequer despertou de seu sono letárgico meu interesse que há muito me impede de buscar detalhes das negociatas que os periódicos costumam denunciar. Deve estar cansado, o pobre, dessa conversa tão previsível das manchetes, que sempre deixa a impressão de se tratar de pão amanhecido o assunto. Que nada – rebate o jornalista. A maracutaia é novíssima, fresca mesmo!

Penso até em sugerir aos jornais que deixem pronto um texto padrão para essas ocasiões, com lacunas a serem preenchidas somente com nomes e datas. O prejuízo, propriamente dito, nem importa mais. Soa banal.

Propina em território brasileiro é coisa tão comum que já se tornou produto da gente como arroz, feijão e café. O país já estuda, inclusive, a possibilidade de desbancar o recentemente alavancado poder econômico chinês, exportando propina. Até porque a produção é tanta que o mercado interno já não dá conta de engolir todo o estoque. É preciso, pois, aproveitar a ocasião e elevar o superávit da balança comercial, vendendo para gringo o excedente! Já imaginou? Que nação desenvolvida pode contar com tão valiosa mercadoria para incrementar os negócios e deixar afoita sua carteira de clientes? Que morra de inveja o primeiro mundo que tem pouco o que aqui tem de sobra. Ela, a propina, cujo nome lembra uma fruta, um componente químico qualquer, é orgulho nacional como futebol, cachaça e corrupção. Claro que a suntuosa cifra resultante será contabilizada na hora de calcular o produto interno bruto, o que fará do Brasil ainda mais respeitado lá no BRIC.

Isso, sem dúvida, dará mais vigor à imaginação da gente que já extrapola ao sonhar com seu país exportando petróleo. Verá, contudo, que a venda de propina baterá fácil a exportação de soja. O que dirá, então, de óleo!

E esse povo alegre, míope para as questões políticas de sua grande nação, também não sabe que dispõe de commodity ainda mais valiosa. Outra que, de tão abundante aqui nesta terra tupinambá, competirá com a propina nas vendas para o exterior. É a fraude que, tal qual aquela, é cultivada de norte a sul, não é necessário acondicionar em containeres refrigerados, é tão brasileira quanto o samba, e há de render um bom dinheirinho para a felicidade daqueles que amam deitar a mão em grana alheia. Quanta alegria! Aliás… Pensando bem, amigo leitor, é frustrante lembrar que não tem lá muito futuro esse lucro que, tudo indica, desaparecerá do colchão governamental, sem deixar vestígio.

Acho que esse negócio de vender pouca vergonha parece mesmo um tiro no pé. Afinal, apenas eles, os criadores de propinas e fraudes, crescerão robustos nos verdes pastos do meu país. E continuarão a se multiplicar feito baratas.   

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA     

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