O SOSSEGO PEDE PASSAGEM

Hoje, enquanto dirigia, fui levado a pensar nos inúmeros apelos para que o motorista respeite, pelo amor de Deus, o pedestre. Dê a ele o direito de passar primeiro, sem ameaçar sua integridade física. Muito justo, diga-se de passagem.

Vinha, pois, trafegando tranquilamente por uma rua e, antes que entrasse noutra, logo vi um simpático casal que começava a atravessar a via pública, lá adiante, razão mais do que suficiente para que eu fizesse uso de toda minha destreza e pisasse no pedal colocado ali no assoalho só para frear o veículo. Talvez nem fosse preciso tanto, uma vez que uma simples reduzida seria mais do que suficiente para dar à dupla tempo de sobra para passar. Entretanto, esta caminhava como se estivesse na sala de casa. Muito lentamente, homem e mulher deixavam claro sua intenção de alcançar o outro lado e ainda fazer troça do motorista, obrigando-o a parar e aguardar. Forma um tanto boba que encontraram de unir o útil ao agradável. Coisa de gente que ainda é maioria nesta terra.

Este novo tipo de diversão, ao que tudo indica, foi criado pelas sucessivas campanhas, e ficou claro no sorriso cínico que acompanhava o casal e seu lento caminhar. Lesmas coxas deslizando por sobre a faixa. Não posso negar que isso tenha me aborrecido e me levado a refletir sobre a questão do abuso daquele que se considera privilegiado por ter que andar a pé.

Segui contrariado e, nem bem eu recuperara o senso de humor, eis que, ao dobrar uma esquina, tive de pisar fundo no freio, porque outro casal iniciava a travessia de outra rua, da mesma forma, lentamente, zombando da minha cara, como se me punisse pelo fato de estar motorizado. A indagação apresentou-se, então, inevitável na minha mente perplexa: qual seria o motivo daquele ato agressivo? Sim, porque o gesto era de antipatia, despeito pelo outro ao volante. Cheguei, inclusive, a pensar que se tratasse de alguma neurose que me fazia ver as pessoas daquela forma, ostentando em demasia sua ignorância latente. Qual o quê! Em outro momento um sujeito, tal qual os primeiros, fez chacota de mim ao caminhar com a mesma lentidão desnecessária, rindo de deleite por me fazer esperar. Tentei a todo custo colocar-me em seu lugar para ver se conseguia sentir o mesmo, caso estivesse na rua. Não consegui, embora tenha sido fácil estar em seu lugar, tendo em vista que quando estou sem carro, também sou pedestre. Considero, contudo, a necessidade de um bocado de pobreza mental para agir assim.

O que está havendo com essa gente, afinal? Estaria aflorando nela aquele ódio incubado com relação ao outro que possui carro? Seria esta regra responsável por mais uma mania da pessoa despida de inteligência que vê nela a oportunidade de tripudiar sobre aquele a quem foi dado o direito de andar de automóvel? É mesmo inconcebível semelhante comportamento. Possivelmente o mesmo que leva o indivíduo a atear fogo em ônibus todas as vezes que participa de um protesto. Tudo em nome da diversão e da bandalheira.

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

  

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