Bafafá multicolorido a encher de burburinho o céu da cidade causa espalhafato e dá o que falar – palavras que encabeçam as manchetes. Parece até a primavera querendo chegar antes do inverno, o espetáculo repleto de alegria e festa a comemorar o direito adquirido de se exibirem as borboletas e os zangões. Tudo muito justo, admito. Só não consigo entender muito bem o motivo para tanto barulho.
Antigamente quando uma pessoa, a despeito de seus atributos masculinos, era pouco afeita à relação íntima com a fêmea, pouca gente tomava conhecimento. Mais silêncio ainda envolvia o dilema da flor que, tendo nascido rosa, sonhava ser cravo. Tudo era mesmo cercado de muito sigilo, como se não houvesse algo de diferente no ar. Como se o dia-a-dia caminhasse dentro de uma normalidade imaculada. Aliás, discrição era tempero fundamental que talvez proporcionasse até mais sabor à coisa.
Mas aí vieram os tempos modernos e tudo que era tesouro escondido a sete chaves e para poucos, virou moda. Principalmente com o advento da televisão que, devagar, foi exercendo seu poder sobre as massas, criando modismos e determinando costumes para vender aquilo que tem de mais precioso: a imagem. É o seu produto, afinal.
Não bastasse, contudo, a TV que também ganhara cores, uma novidade foi incorporada a esta façanha da comunicação, que tornou a mídia ainda mais forte. A internet que veio para revolucionar e ficar tem auxiliado bastante na tarefa de fazer a cabeça da gente que ambiciona ser ou ter algo de valor duvidoso em detrimento daquilo que realmente poderia fazer evoluir sua mente e toda uma sociedade. O corpo sarado, por exemplo, é objeto de desejo que condena sobremaneira a barriga, o pneu e a celulite, perfil que atira no abismo a autoestima de quem amarga possuí-lo e enche os olhos ao ver os modelos da telinha que só nas reportagens exibe seres humanos fora do padrão de beleza. É bonito, pois, ser magro, ser alto, ter músculos proeminentes, ser gay, ouvir música alta, postar no face…
Se alguém meio aborrecido ainda protestar por considerar invertidos os valores, por certo encontrará quem mostre e comprove como é bela esta vida e que não há o que pague a liberdade dos dias atuais. Tem toda razão. Mas deixa ser feliz o gordinho, o barrigudo, o flácido…
Equívoco de toda uma geração esse pensamento que determina padrões de estética e se esquece da conduta? Engana-se, pois, quem se imagina livre simplesmente porque veste roupa de mulher e sai pela avenida. Ser livre é muito mais do que isso, é buscar o conhecimento para mudar.
Mas é bom saber que nem tudo está perdido, enfim. Há um lado positivo em toda essa modernidade, e ele está no fato de ter se acalmado a civilização humana com relação a antigos espectros que rondavam, como a preocupação com a explosão demográfica que traria fome e sede. Graças à prole cada vez menor que todo casal almeja possuir atualmente, o mundo pode respirar aliviado. Mais aliviado ainda ficará com o alarmante crescimento da união de pessoas de mesmo sexo. Logo será preciso fazer campanha para a volta da cegonha que já pensa em buscar outra profissão, assim como o professor.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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