BEIJO SANTO

O papa beijou a criança. A mãe derramou lágrimas de sincera beatitude. Eu, de minha parte, considero meio exagerado isso de chorar porque o santo padre esteve muito próximo de nós ou de alguém de nossa família. Percebi até um dedinho de tietagem no chororô da mulher. Então, pela autoridade que me fora conferida pelo grau de parentesco com aquela, decidi tecer comentário sutil, com o cuidado de não deixar transparecer a intenção oculta de criticá-la. Calei-me em seguida. É preciso prudência para não magoá-las, principalmente em questões ligadas à sua religiosidade. E também porque esperneiam, choram e falam muito.

Ainda assim, fui repreendido pela pessoa que acusou-me de insensível, homem sem religião. Não que esteja lá tão errada, a pobre. Além do que, eu não sou muito apegado ao fanatismo, seja religioso, político, ou de qualquer natureza. Respeito, evidentemente, o gosto e os motivos de cada um. Sou um sujeito modesto, aberto a discussões e a aceitar o ponto de vista do outro, tanto manifestante, como gay, ou torcedor.

Chegou a bater um sentimento de culpa pelo comentário jocoso, porque, afinal, para a pessoa cheia dessa religiosidade, que não dispensa a companhia do santinho, a presença do sumo pontífice que veio de Roma exclusivamente para pisar este solo idolatrado, é emoção ímpar que faz verter as lágrimas, de verdade.

Teve até tumulto na chegada do homem. Imagem bonita do povo que nem tomou conhecimento da segurança e correu para tentar tocar no carro, na batina, ou quem sabe na mão dele, só para depois contar, cheio de orgulho, a proeza.

Mas que feio, insinuar que aquela boa gente que corria louca atrás e ao lado do veículo, burlava a segurança! Esta de fato facilitou. Além do mais, todos sabem, não é prática comum neste vasto território Tupinambá, burlar-se alguma coisa. Aconteceu que a euforia cegou as pessoas que correram para ver de perto a estrela máxima do evento.

Esforço-me, inclusive, para compreender e aceitar que é parte integrante da natureza humana essa atração pela proximidade com o mito, seja ele artista, desportista, ou santo. Se o ser, objeto desta conversa, for pouco afeito ao lado intelectual da vida então, esta tendência tende a se consolidar com mais veemência.

Tem também aquele outro pessoal que ficou tão feliz com a presença papal que resolveu promover show pirotécnico para policial apreciar. Houve quem afirmasse se tratar de protesto por alguma coisa que ficou esquecida com a empolgação causada pelo espetáculo. Bastante compreensível! Tanto amor concentrado num único lugar só poderia aumentar a amperagem dos ânimos e causar polvorosa no seio da população. Deu o que falar. As televisões se fartaram com a audiência de uma e de outra festa.

Lá na basílica, imagine, nem chuva e frio intenso detiveram as pessoas que acamparam dois dias antes, bem próximas ao altar, somente para garantir que veriam de perto sua santidade. Gente de fé que, aliás, é tudo o que lhe resta para driblar as agruras dessa realidade verde e amarela, cheinha de percalços.

Começo a desconfiar que esse povo está certo: o jeito é mesmo rezar o terço.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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