DIALOGANDO COM A NATUREZA (MORTA)

Rio, o governador disse que vai livrá-lo da sujeira. Disse também que não poupará esforços para a empreitada e que grana não há de faltar. Andou reunido aí com gente da alta, representante de departamentos sem os quais não seria possível sequer começar a discussão a respeito. Está fazendo tudo direitinho para que nada resulte errado.

Sei que não acredita muito nessa conversa, rio, e não o culpo. Até porque nem deve se lembrar de quando a vida habitou soberana nas suas águas. Hoje o lixo se desdobra para substituir a vida em companheirismo, sem muito sucesso. Boa vontade não lhe falta. O lixo, coitado, nem sabe que é lixo e que torna tudo muito feio e com cheiro desagradável, não é rio? Mas ele se esforça. Afinal, tem plástico de sobra e vidro também, em cores variadas e alegres que cintilam ao sol. Desnecessário até mencionar demais objetos deixados ao sabor de sua correnteza. Basta que se coloque a imaginação para trabalhar e pronto, lá está a coisa. Nem é bom pensar, não é rio? Por certo encheriam aqui muitas páginas e tornariam feio também o texto.

Ouvi dizer que havia regata em suas águas, é verdade, rio? Regata mesmo? Aquela competição de barquinhos em dia de muita festa em que as pessoas buscavam lugar em suas margens para apreciar o evento?! Parece irreal! Um tempo de sonhos que já vai longe da sua realidade de hoje quando os transeuntes torcem o nariz toda vez que são obrigados a passar próximos a você. Não leve a mal não, rio. É o nariz, dispositivo que equipa o rosto humano e de outros bichos, e que tem a função de detectar cheiros, o responsável. Não os culpe por isso, mesmo sabendo que todo o cocô que navega tranquilo em seu leito, é ele, o povo quem o produz e o coloca nas suas costas. Vê, rio, que gente nojenta! Você é feito de água sem cor, sabor ou cheiro. Pelo menos lá onde nasce. Eles não, pensam que têm o rei na barriga, mas têm outra coisa. E os presunçosos ainda se acham melhores do que você! Chamam-no de fedido. Deveria, rio, dizer-lhes que são os responsáveis e processá-los todos por calúnia e degradação. Apesar de que… Pensando bem, rio, é melhor deixar para lá. Pessoas são assim mesmo: se imaginam sempre superiores umas às outras. Nada pessoal contra você.

Vala de sujeira foi no que o transformaram, não é? Revoltante! De qualquer forma, lembre-se sempre de que lhe dispenso toda a minha estima e solidariedade! Também, é só o que lhe posso oferecer: meu apoio moral.

Torço mesmo pelo sucesso deste projeto, rio. Chego a pedir a papai do céu que o ajude a torná-lo rio novamente, o que você hoje, desculpe o mau jeito, não é.

Será que demoram a aparecer os primeiros resultados? É preciso muita paciência. É preciso ainda resgatar a vida em outros tantos rios que despejam suas águas e tudo que vem nelas em você. Não que seja intenção minha desanimá-lo, mas eles vêm de outras cidades aqui de perto, e não tenho certeza se os homens de lá aspiram aos mesmos ideais de limpeza e cuidados com o meio. Sabe como é, homem é homem e não rio. Não consegue se sensibilizar com o frescor da água doce, nem é capaz de sossegar a alma com o barulho dela quando corre com força. Tampouco se importa com peixes, pássaros, essas coisas. Talvez tenha desaprendido tudo isso com a urgência dos tempos modernos que acabaram por afastá-lo do que é natural. Coisa de gente não de rio. Pessoas habituadas ao concreto e ao asfalto, não veem sentido em se gastar dinheiro com a vida que deve ser devolvida a você, tal qual lhe fora tirada.

Mas está aqui, rio, um ser humano que aprecia sobremaneira a natureza e sonha muito com o seu retorno e dos demais da sua espécie. Seria um bom começo, um fiapo de evolução dessa raça que se deteriora dia-a-dia, da mesma forma que deteriorou suas águas. Não acha, rio?  

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

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