Comemoramos mais um aniversário em família. É… Heitor está mesmo envelhecendo! Qual o quê! Completou somente quatro anos – dirá alguém. Mas o ser humano é assim, dá início à contagem regressiva logo que bota os pesinhos no mundo. Constatação um tanto óbvia mas que me fez pensar sobre a passagem do tempo, implacável tempo que fora celebrado na festa do sábado.
Por pura falta do que fazer, um tanto comum nestas ocasiões, estive ali a observar as pessoas presentes autorizadas a beber cerveja. Aquelas que noutro dia se vestiam da inocência da infância e hoje ostentam barriga, cabelos brancos, rugas e demais adereços concernentes ao organismo que um dia resolveu dar as caras por aqui e finalmente descobriu, atonito, que o tempo passou.
Meu velho pai, por exemplo, agora é conduzido pelo braço e se submete ao comando e à vigilância daquele que não o julga capaz. Talvez porque o seu dicernimento envelhecera, como tudo envelhece, e não desfrute mais do vigor dos primeiros tempos, é que necessite mesmo desse apoio técnico sem o qual poderiamos ver abreviada sua estadia nesta planície. Bastante compreensível. Espera-se, inclusive, a mesma atitude da garotada de hoje que logo conduzirá pela mão papai ou mamãe, ou ambos, bravos sobreviventes que todos olham admirados pela garra e a determinação em alcançar pelo menos um século de vida.
Vovó Maria é personagem inesquecível da família que todos bajulavam por ter ultrapassado a marca. Vivia feliz e muito grata a todos que a conduziam ao banheiro, sempre amparada para que não caisse. O momento do banho, íntimo prazer de todos os dias, era apreciado sobremaneira pela doce velhinha, justamente porque não necessitava erguer um só dedo para executar a tarefa, já que dispunha de outro alguém para fazer o trabalho. Se desejava comer algo meio extravagante, o seu anjo da guarda logo negava veemente o pedido, com a justificativa de não lhe cair bem o quitute. Viver sozinha no aconchego de seu lar, nem pensar! Quem, afinal, assumiria a responsabilidade por todos os cuidados de que necessitava o corpo gasto, frágil como um pardal? Mas relatar minuciosamente toda a sua vida, isso podia. Claro que normalmente seus ouvintes não eram dotados de delicadeza suficiente para disfarçar o bocejo de tédio. Ela fingia não perceber.
Sozinho naquele momento de congratulações pela passagem de mais um aninho do rebento, eu refletia sobre esta breve viagem pela existência. E não podia deixar de lembrar da vovó, pessoa símbolo quando o assunto diz respeito à longevidade. Mas aí, envolto nesse torvelinho de pensamentos, lembrei-me assustado que me flagrei também enchendo, com as minhas histórias, os ouvidos fartos da pessoa que me dispensara atenção, em outro momento. Fiquei perplexo com o descarado sintoma da idade chegando. Reparo até que as pessoas dessa faixa já possuem largo repertório delas. Coisa de velho sim! Fico ainda mais aturdido quando essa gente começa a desfiar um sem fim de doenças, tratamentos, remédios e nomes de médicos, cheios daquela baba natural que escorre quando se tem um apego enorme por um um mal físico, uma doençazinha qualquer que possa ser descrita com olhar consternado para valorizar o drama.
Da mesma forma difícil é perceber que essas pessoas há muito se encantam com as travessuras dos netos que correm para todos os cantos. Imagine! Nós que um dia destes falávamos de namoradas, noitadas, coisa e tal! É de arrepiar a velocidade com que se dá o fenômeno!
Sabe, desconfio que os docinhos das festas de aniversário começam a me azedar no estômago, o que me faz concluir que para se evitar o desconforto é melhor não pensar que nessas ocasiões o sujeito comemora somente a disfarçada felicidade de ter sobrevivido por mais um ano.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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