MORADOR DE RUA

Parado no interminável congestionamento, eu observo. O homem no passeio acaba de acordar, ou antes, parece dormir sentado. Seu rosto é redondo, tudo indica, por causa do inchaço oriundo do excessivo consumo de cachaça que tanto ajuda a suportar a miséria. Anestesiado, fica mais fácil acostumar-se ao lixo ou a qualquer tipo de degradação, constato sem muita surpresa.

O papelão também presta inestimável serviço como abrigo a ele e aos demais habitantes do passeio público, que ainda dormem em meio à sujeira que comparece para engolir aquela gente de aparência tranquila.

O homem olha sonolento ao redor. Avalia o trânsito parado, os demais homens, mas os olhos empapuçados custam a assimilar as imagens, dada a luz do dia que já vai tarde e à confusão em que se metera sua mente encharcada. É possível que nem enxergue o que está à sua frente. Pertence, afinal, a outro mundo e, distante anos-luz do seu, é aquele ir e vir de pessoas ocupadas.

Dois cães são alegres companheiros. Sorriem para o ser humano que acaba de despertar. Cachorro é assim, fiel, embora, não se iluda, dedica amor incondicional ao outro somente porque não tem noção das coisas, muito menos do estado de precariedade absoluta do seu dono.

Trapos, cacos e resto do que teve utilidade em outra época, compõem os pertences daquele que deve, à custa de muito sacrifício, levantar-se e batalhar o pão que forrará o estômago naquele dia. A pinga também é alimento que não deve faltar. É ela que combate o frio e a água da chuva que molha o corpo, além de garantir o sono bom que faz esquecer. Tudo à sombra do enorme carrinho, bem mais valioso do ser que não consegue imaginar sua vida sem ele.

O homem não me percebe e também não sabe que é protagonista de uma cena que remete a pensamentos profundos e vagos a um só tempo. Aliás, não nota qualquer presença. Parece até que seu olhar passa através dos carros e das pessoas, e segue adiante, em busca de algo que ele não sabe bem o que é.

A mulher que dorme ao seu lado, talvez lhe seja indiferente ou, em dado momento, lhe conceda instantes de prazer num recanto de construção ou de carro abandonado. Ainda que seja difícil imaginar um fiapo de alegria no sub-mundo da pobreza extrema.

Parece até que esse povo perdeu o gosto pela vida, repleta de outras possibilidades, mas que tão longe do seu alcance se tornou, afinal.

Ali, naquele meio, não correm notícias sobre os acordos diplomáticos mundo afora, nem dos eventos esportivos, inflação, ou da rainha, bisavó de um rei…A pauta do dia, assunto sobre o qual discorre a mente perturbada, pode até ser intrigante para alguém que passa e observa a existência em suas várias nuanças. É certo, contudo, que para a maioria, essa gente não existe. Invisível, é sempre confundida com mosca daninha que vem aporrinhar o motorista para conseguir a tão suada e humilhada moeda.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑