Um tanto comum nesta época é a carinha de espanto das pessoas ao constatarem que tudo passou muito rápido. É… O ano mais uma vez chega ao fim e já é possível notar a presença do outro logo ali adiante, no horizonte do tempo! E mesmo ciente de que o período é composto de doze meses com trinta dias cada, esse povo insiste na perplexidade quando é chegado o desfecho, como se acreditasse num fenômeno misterioso responsável por empurrar as horas que, como se sabe, permanecem com seu caminhar sempre igual, no mesmo ritmo. Além do mais, convenhamos, se o ano tivesse vinte e quatro meses, ainda assim ouviríamos de uns e de outros, ao final, a mesma canção que nunca sai das paradas.
Apesar de que, verdade seja dita, tem lá sua parcela de razão essa gente que se espanta com o andar ligeiro da carruagem. Coisa de louco! Eu, que faço parte dessa massa e adoro fazer troça dela quando se assusta com a velocidade do tempo, também dou a mão à palmatória por considerar que de fato tem passado muito rápido. Chateação que vem demonstrando bater o próprio recorde de velocidade a cada giro dos ponteiros e ainda se tornou mais rápida quando deixei para trás os dourados anos quarenta. Parece até que a partir daí desatou a correr, o danado do relógio. Chego a pensar que se trata de alguma travessura da existência que faz o ser humano ver a passagem dos anos de forma diferente, conforme as etapas pelas quais transita cada um nesta não tão longa estrada. Assim, quanto mais velho, mais lhe parece voar as folhas do calendário. É como se estivesse num trem de montanha russa, no primeiro carro, vislumbrando de antemão o abismo à frente.
Lenga-lenga filosófica à parte, contudo, é tempo também de sonhar e comprar, e vender! Vender felicidade! Alegra-se, pois, o comércio com as festas criadas para reverenciar o consumo. Tudo em nome do espírito natalino que antecede os planos e os sonhos para o ano vindouro. Muita celebração regada a champanhe ou sidra, conforme o nicho social do indivíduo, deve acontecer como tem acontecido no decorrer dos séculos. Povo vem, povo vai e as belas canções a entoar suas doces melodias nos estabelecimentos comerciais, embebem sua excelência o consumidor, de sentimentos de santidade, solidariedade, sede e gula. Santuários enfeitados, coloridos, repletos de atrativos para o deleite daquele a quem é dado o privilégio de meter a mão no bolso e pagar. Ao outro, coitado, que talvez não goze da mesma saúde bancária, quinquilharias são carinhosamente dispostas nas prateleiras de lojas montadas especialmente para fazer a sua festa. Todos somos filhos de Deus, afinal, e o bom Papai Noel sorri para pobres e ricos. Não vê distinção o coração do velhinho. Logicamente que a alegria não é lá tão espontânea quando se é pago para passar o dia de verão tropical dentro daquela roupa enorme, quente como o diabo. Mas o Papai Noel das vitrines, este não reclama, só acena e sorri satisfeito. Feliz Natal!
Quanto ao verdadeiro, se tem barba branca é porque é velho e por ser velho deve sofrer com a neurose de que passa muito rápido o tempo.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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