O corpo do menino eles encontraram no rio, quilômetros adiante. Foi levado pela correnteza. Até aí, nada de mais. A força da água tem mesmo essa mania de arrastar coisas e gente. Mas o que terá arrastado a criança para o rio é a questão crucial. Certamente as mãos fortes de um ser humano a quem fora dada a oportunidade de alcançar a vida adulta, condição primeira para dicernir e realizar.
Então, de posse do poder a ele conferida pela diferença de idade, teria decidido sobre o destino do outro, já que, de alguma forma lhe constituía empecilho a sua existência. Como se fosse Deus, considerou que seria melhor se aquele não comemorasse o quarto e os demais aniversários.
Fez até lembrar a menina que há alguns anos fora atirada do sexto andar, sob que pretexto, ninguém sabe.
Em outro momento da dura história contemporânea, um casal que passara dos noventa, pensando talvez na velhice que haveria de dar por encerrada a sua existência neste plano, foi surpreendido e arrebatado pelo revolver de alguém que buscava quinquilharias.
Novo, velho, tudo é organismo vivo, afinal, passível de morrer por qualquer bobagem. Até pelas mãos de alguém que considera mais prático deitar ao solo sua vítima antes de solicitar que entregue o seu pertence.
O olhar aturdido da pessoa comum, então, indaga, diante do noticiário, acerca da brutalidade em todas as suas facetas: é o corpo despedaçado no acidente, é a depredação, é o homicídio, o suicídio, a humilhação… Incontável, incontestável e diária, ela priva da liberdade. Mesmo assim, é preciso conviver com ela. Aceitá-la, jamais. Metê-la goela abaixo sim, é alternativa que resta.
Tanto avanço tecnológico à disposição, meu Deus, tanta conquista na medicina, na ciência, e nada se descobriu até hoje que contivesse a mão assassina sedenta do sangue alheio. Bem que se podia inventar uma droga que, uma vez injetada ou cheirada, provocasse no facínora um desejo incontrolável de dar cabo da própria vida. Quanta lágrima seria poupada, ou talvez derramada de felicidade pelo extermínio daquele.
Nossa! Que faço eu, promovendo a violência? Absurdo imperdoável! É certo que o amigo leitor, calejado de notícia ruim, nem há de reparar na minha brutal indelicadeza. Perdoe-me assim mesmo, afinal, a mente de gente simples torna-se meio violenta quando ouve falar de alguém que tenha deixado as trevas para promover a angústia em troca de nada. Até isso eles conseguem: tornar violenta a mente que só procura a paz.
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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