Silenciosamente, por entre as árvores, a casa espia as pessoas que passam à sua frente, anos após anos. Não espreita quem anda na rua, local onde se espera encontrar pessoas e casas. Sua fachada está mesmo voltada para uma praia e ela parece conviver em harmonia com o mar e com as gerações de homens que dele tiram o sustento. Assim como eles também, aos poucos, se tornaram íntimos dela e, por conseguinte, habituados com o entra e sai de suas dependências, décadas após décadas.
Tanto tempo se passou desde que a conheci que bate até a sensação de que a casa sempre fez parte daquele cenário, como as águas, as pedras… E também os barcos que lá adiante, prestam valioso serviço para compor o cartão postal de fim de tarde ou de noite de luar em que o reflexo deixa extasiado aquele que é dotado de um grama de sensibilidade, artigo que, aliás, me entristece perceber tão em falta no mercado ultimamente. Ainda que se possa encontrar uns e outros que partilhem comigo de tão sublime sentimento num mundo voltado exclusivamente para o consumo e a aparência fútil.
Em épocas destinadas à celebração da alegria, as emoções à flor da pele parecem se acumular no interior da casa, em forma de energia que emana e flui para todos os cantos. Talvez a correria da criançada, associada às gargalhadas e ao entusiasmo do adulto que tem desfrutado dela e se chateado quando da partida, é que tenha criado esse espírito. Alegria que tem lugar em períodos em que se é dado o direito de apreciar a vida longe das preocupações cotidianas, e em que até os desafetos entre os homens parecem ficar de lado, porque imprescindível mesmo é comer, beber, pouco fazer além de pisar descalço a areia a caminho do mar, e passear de mãos dadas. Sim, porque a presença do bem-querer também é fundamental nestas horas, para completar o quadro de sossego e bem-estar.
Na casa é possível até brincar de faz de conta e sonhar que a vida se resume nisso, no barulho causado pelo eterno vai e vem das ondas e pelo cheiro salgado que adentra as narinas e vai tocar fundo o peito daquele que aprecia sobremaneira o contato com a paz que a natureza reserva. Paz que reina soberana na casa com sua alma nascida ali na praia. É… Porque também tem alma aquele prédio de aparência concreta. Imutável alma que parece tocar a nossa e se dar bem com ela.
Noutro dia, ocorreu-me conversar com a casa e perguntar-lhe acerca dos anos transcorridos desde a sua construção, tempo considerável que se encarregou de elaborar com capricho toda a sua história. Surpreendi-me, pois, com a revelação de que ama ser visitada e ter suas entranhas fervilhando de alegria. Disse, afinal, que casa sem pessoas não pode ter história. Seja ela repleta de felicidade ou não, é preciso que haja muito sentimento para que tudo fique impregnado nas suas paredes. Logicamente que se o sentimento é bom, a alma é melhor ainda. E, como pode ser ruim na presença de tanta vida, paz e beleza que o mar gentilmente oferece?
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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