Defina-se por sentimento patriota aquele comportamento apaixonado e tresloucado do cidadão comum que se pode conferir de quatro em quatro anos quando o scrat canarinho viaja para qualquer canto da Terra com a difícil missão de retornar à casa, carregando consigo a Copa do Mundo. É gente que grita, que ri, que chora, que xinga, que canta… Até o Hino Nacional é entoado pelas esquinas, e o suado dinheirinho brasileiro, queimado nas alturas. Desde que partida após partida, o torcedor tenha o que comemorar, claro.
Os milhões de técnicos espalhados de norte a sul da pátria continente fazem escalações segundo seus critérios e são implacáveis na discussão quando o assunto diz respeito à pelota no gramado verde. O minguado salário, nessa hora, fica até esquecido, já que as vitórias conquistadas enchem de riqueza a alma vencedora e o alimento vem em forma de gols. E de barriga cheia, o grito de felicidade deixa os recônditos de cada um para ecoar uníssono por todo o idolatrado céu azul anil. Salve, salve!
Em contrapartida, uma indigestão é companheira certa no seio da torcida quando a revolta explode diante da imagem da rede verde-amarela balançando pelo toque nefasto da bola adversária. Todos criticam, todos malham, porque, afinal de contas, o que vale é o título, certo? Quem liga para vice? Alguém, por acaso, conhece o vice-prefeito? Sabe-se o nome do vice-governador? Há quem se lembre da existência de um vice-presidente? Por que, então, tornar-se vice-campeão? Francamente!
Mas o comércio para, a indústria para, a vida para, tudo para para assistir à seleção no seu habitual compromisso com a vitória. Nesse momento o corinthiano, o palmeirense, o sãopaulino, enfim, todos aqueles que dedicam parte da vida a insultar uns aos outros em nome de sua camisa, unem-se num único clamor, com os olhos voltados exclusivamente para o futebol praticado lá onde o mais importante torneio tem lugar. E o coração, que dentro do peito nem assiste ao jogo, bate forte coitado, sem saber o motivo, preocupado, talvez, com o resultado que não passa de meros números que se perderão no segundo tempo da vida. Outros números lhes roubarão a cena, afinal.
Entretanto, é preciso aproveitar esse período em que a nação veste as cores da bandeira, pinta o asfalto, coloca a flâmula nacional por toda a parte, para, de vuvuzela na mão (mais um vocábulo acrescentado no idioma), extravasar mesmo. Até porque, torna-se a pátria país de primeiro mundo a cada conquista de copa. Primeiro mundo do futebol, e daí?
RODOLFO OLIVARIS
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