Cacilda não era mulher, tampouco um ser humano. Era somente uma aranha. É, amigo leitor, uma aranha. Orgulhoso artrópode na sua laboriosa função de construir teias.
Seu sexo, não vem ao caso. Simplesmente por se tratar de substantivo feminino a denominação do animal, resolvi chamá-la Cacilda, nome um tanto quanto apropriado, até porque foi o primeiro que me ocorreu. Poderia tê-la chamado Ana ou Sheila, mas Cacilda lhe caiu melhor, tal qual acontece a uma pessoa cuja aparência em tudo é igual à forma como é chamada, sem que se saiba por quê.
A ideia de tratá-la como se fosse gente não veio obviamente de minha simpatia pelo bicho, esta que se sente normalmente por cães. Nasceu de sua presença constante no telhado da garagem de casa, quieta ou compenetrada na tarefa de tecer, ou ainda na degustação de algum infeliz inseto, preso no emaranhado de fios.
Cacilda não tinha consciência de que era observada, nem consciência alguma, mas a verdade é que ao sentar-me na varanda para um descanso, eu estava sempre atento à sua companhia, embora ela não demonstrasse lá alguma satisfação com a minha.
É preciso ressaltar a antipatia de minha mulher pela maneira carinhosa com que eu me referia ao inseto. Obstinada, insistia em solicitar as minhas providências para desalojá-lo e limpar o local, diligência que despertava em mim muita compaixão.
O telhado da garagem fica num ponto da casa de onde é possível observá-lo quase ao nível da varanda que fica atrás e num plano mais alto. Não convém, claro, descrever aqui os detalhes da construção para não abusar da complacência do leitor que se encontra atento, curioso para saber acerca do gordo e repulsivo exemplar da espécie aracnídeo, este que fez da junção de um caibro com uma telha, sua morada. Até aí nada de extraordinário. Exceto pelo fato de ter nascido em mim um certo respeito pela figura animal e o seu direito de habitar minha casa sem mesmo ter assinado um contrato, ou ainda de fazer parte de um mundo caótico e desconhecer sua relação com os homens. Fazia-me pensar na insignificância daquela vida, ainda que importante na sua porção no todo e no tempo.
Filosofia à parte, porém, fato curioso ocorreu ao tomarmos, eu e minha esposa, o cafezinho da tarde ali, naquele local, quando o vento daninho soprou uma embalagem plástica de um biscoito, da mesa para o chão e depois para fora da área, tendo ele parado justamente no emaranhado de teias de Cacilda.
No momento em que se preparava para protestar pelo fato de ainda estar ali a teia inoportuna com sua fabricante, minha mulher, assim como eu, parou para reparar na atitude da aranha que se deslocou de sua posição onde permanecia, aparentando dormência, para o objeto enroscado e observou, observou. Notou, então, que não se tratava de nenhuma guloseima, decepção que a levou a cortar cuidadosamente a teia ao redor da embalagem, até soltá-la. Esta permaneceu um ou dois segundos dependurada e caiu, deixando um buraco na armação.
Nossa atenção continuou focada naquele ponto, aguardando a conclusão do episódio, quando Cacilda, diante de nossos olhos incrédulos que ela nem reparou, costurou rapidamente a teia, fechando a lacuna deixada pelo invasor. Voltou, em seguida, para o seu repouso merecido.
Ficamos impressionados com sua performance. Diacho de aranha dedicada!
Claro que caiu rapidamente no esquecimento aquela tarde e o bicho acabou por receber, apesar de tudo, ordem de despejo, para livrar o telhado da garagem que fora construída para o conforto humano.
RODOLFO OLIVARIS
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