Todos anseiam pela noite que vem para refrescar, livrar a vida do sufocante calor dos trópicos. Quimera que se desfaz rapidamente com a ausência de uma brisazinha benfazeja que, nesta hora, só faz adiar o sonho do frescor noturno. Aquela chuvinha, então, hoje escasso produto que São Pedro insiste em guardar para si, viria para dar um pouco de umidade ao ambiente que só oferece secura. Mas o céu estrelado anuncia outro dia seco. E eu pelas lojas, em busca de mais ventiladores, como se não houvesse o suficiente em casa. E não há.
O vendedor, coitado, se desdobra para atender as pessoas que se aglomeram, pedindo informações sobre este ou aquele modelo que não duram muito no estoque.
− Não senhora, este é o último que tenho. É mostruário mesmo. Mas é bom, posso garantir.
− Mas está empoeirado.
− Eu limpo. Tenho aqui uma escovinha e um pano… Tenho certeza de que deixei por aqui. É fácil! Vê? Já, já está novo em folha.
− Mas está meio usado, não?
− Imagine. Montei ainda ontem, ou terá sido ante-ontem?
− Pela poeira, foi ano passado.
− A senhora pode optar por este turbo aqui que está na caixa, é silencioso e muito potente. Tem nas cores… Bem, sobrou o preto…
− Não. É muito caro. Manda este mesmo. Tem desconto se eu levar com o pó? Afinal, isto é um ventilador, não um aspirador.
− Não sei, não. A loja já está liquidando.
− Fale com seu gerente.
De nada adianta, contudo, a conversa que tenta passar no vendedor, e a boa senhora acaba por sucumbir aos argumentos do mesmo e da temperatura para, enfim, levar o aparelho que foi submetido a uns tapinhas com um pano, cortesia do atencioso profissional que não obteve o desconto, mas que limpou direitinho o produto e, de sobra, ainda sorriu simpático, gesto que reforçou a confiança da mulher. Sem contar a vantagem de estar adquirindo um aparelho pra lá de testado.
Sufoco como este, há tempos que não se via! E a meteorologia garante que a chuva será escassa durante toda a estação por causa do diabo de um fenômeno lá no Oceano Pacífico. Fazer o quê? Tenho ouvido muita gente proclamar, cheia de entusiasmo, que prefere o verão, que ama sentir no lombo o mesmo sol que derrete o asfalto. Pronto. Aí está. Deleite-se. Principalmente você que está bem longe de uma praia ou piscina, metido num trânsito infernal ou, o que é ainda pior: dentro de um ônibus parado no engarrafamento.
Logicamente que as pessoas têm lá suas preferências e isso deve ser respeitado. Mas convenhamos, tudo que é demais deixa de agradar para causar problemas. Lá no hemisfério norte, em Tio Sam, o povo tem congelado até o sangue nas veias. Circula mesmo com dificuldade, o líquido precioso. Isso é vida? Consegue o amigo leitor imaginar um lugar para se viver com uma temperatura mais baixa que aquela do seu freeser?
Aqui, logo, logo não precisaremos de fogão para fritar o bife. Que privilégio diante do cara que morre de frio! Ou não será? Sabe, bom mesmo é aquele tempinho em que nem se treme feito vara verde, nem se acaba num mar de suor. Isso sim é bom.
RODOLFO OLIVARIS
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