CHAMEI DE MAU GOSTO

No meu país, graças a Deus, o povo agora pode protestar. Não que não pudesse fazê-lo antes… E até que fazia. O problema é que, uma vez detido pelos inquisidores da época, tinha seu coro arrancado com a acusação, nada comum em dias atuais, de subversivo, sujeito que subverte os bons costumes, ato passível de ser punido com o desaparecimento, o que, aliás, nem soa assim tão penoso quando se imagina uma guilhotina, ou uma forca… Apavorante, contudo, é tomar conhecimento dos detalhes técnicos das sessões de interrogatório a que era submetido o acusado antes que lhe botassem fim ao sofrimento. É bom nem pensar.

Mas isso vai longe! Hoje as pessoas esbanjam liberdade e vão às ruas com a finalidade de promover toda sorte de manifestações, por qualquer coisa. Muitos são os motivos justos. Muitas são as razões banais, desculpa para uma boa algazarra repleta de ônibus queimados e de tipos variados de quebradeira que enchem de excitação e alegria a festança revoltosa.

Tem aí um evento que ilustra sobremaneira o furor democrático dessa gente moderna. Ocorreu outro dia quando um grupo saiu pelas ruas de uma grande e maravilhosa cidade, para se fazer ouvir em determinada questão que merecia um barulho. E o tumulto fez valer a sua força com a entrada em cena daquele grupo pago para dar um toque de realce à revolta. E, claro que espetáculo de tal monta pedia ainda um show pirotécnico, lembrado por alguém que acendeu o pavio de um artefato que decolou do solo, cheio de razão, e fez parada ali adiante, justamente na cabeça de um homem, profissional da imprensa que cobria o levante, como era trabalho seu. Não houve, obviamente, quem surgisse do seio da turba para assumir o atentado, como acontece lá onde o terrorismo faz parte da cultura do povo. Deu a impressão de que a bomba teria, por livre e espontânea vontade, se deslocado até o lugar e disparado rumo à vítima, por considerar inoportuna sua presença.

Estupefato, o povo que não vai à rua senão para desfrutar do sagrado direito de ir e vir, comenta boquiaberto e com semblante carregado de indignação, a morte do outro. Mais uma dentre tantas. Diga-se de passagem, esse número exorbitante de assassinatos debaixo desta querida e idolatrada lona verde-amarela, é que faz com que a população esqueça. Um acontecimento sobrepõe o outro até que os mais antigos sejam conduzidos aos porões da memória. Muito natural, embora, a princípio, o povo pedisse justiça.

E, finalmente, depois de muito furor policial e jornalístico, prenderam o cara, tido como o autor da lambança. Comediante nato, teria dito, o cretino, que não sabia que aquilo que acendia era uma bomba. Talvez, na sua visão distorcida de mundo visse no objeto um inocente vaso de samambaia. Mente torpe a corromper o que, a priori, serve para dizer não, reivindicar, exigir… E é nos bastidores desses movimentos que se organizam as forças que patrocinam a desordem. E o povo ainda acredita que o protesto é seu.

Acho mesmo que é hora de repensar os dizeres do pavilhão nacional.

 

RODOLFO OLIVARIS

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