Pensei que vida de professor fosse dura somente aqui em pátria tupinambá. Entretanto, o caso que foi relatado no noticiário da manhã, desmente este escritor que, em se tratando de educação, tende sempre a relegar a seu país as primeiras colocações no pódio do fracasso escolar. Razão de sobra tem para fomentar sentimento tão perverso e carregado de rancor, afinal, o ser humano deste lugar, que se entrega diariamente à difícil tarefa de ensinar, já anda meio exausto com o descaso dedicado de coração ao conhecimento. Chega a dar inveja daquele de além mar que a mídia mostra gordo, bem nutrido de comida, de respeito e um tantinho de prestígio.
O professor daqui, judiação, que ainda não pediu licença saúde, já ensaia alguns sintomas que por certo logo o jogarão no colo do psiquiatra. Estender-se em longo e envolvente diálogo consigo mesmo, é um deles. Aliás, característica comum no seio da categoria mais insana de profissionais.
Se bem que o que aconteceu em terra distante, prova que professores de algum lugar deste mundo andam ainda mais necessitados de tratamento do que os que aqui suam a camisa. Suas esquisitices chegam a superar as que encontramos no meio educacional deste idolatrado chão. Inacreditável! Talvez, devido à natureza um tanto mal-humorada de sua clientela, o professor de lá tenha ficado assim, meio aloprado. Ou ainda pela disciplina, cheia de muita paixão, à qual dedica toda sua vida. É difícil chegar a uma conclusão. Quase nada sabemos, só o que nos chega pela TV e qualquer coisa nos jornais.
Foi uma destas reportagens, inclusive, que deixou perplexo o âncora, sujeito um tanto espirituoso que tocava a matéria jornalística, a mesma que me forneceu um bocado de inspiração. Incrédulo, relatou o episódio que teve lugar, como disse, em reino longínquo, lá onde tirar a vida do outro, despedaçando-lhe o corpo é prática comum. Era um curso de capacitação para pessoas que se especializavam em deitar ao solo o maior número de súditos, e ao mesmo tempo. Há técnicas para isso, sabe? E é preciso aprender. A turma, pois, ouvia embevecida o mestre que explicava como montar uma carruagem bomba e cinturões pirotécnicos, tudo para dar cabo de muita gente e escandalizar.
Compenetrados, atentos para os detalhes, os olhos brilhantes viajavam de um componente a outro, analisando com amor cada peça, saboreando a montagem de artefatos utilizados para usurpar o direito à vida. E tudo era observado minuciosamente. O instrutor, cheio de orgulho de sua sapiência, transmitia aos mais jovens a sua arte.
Lembra até o entusiasmo de um professor destas paragens quando, em raro momento, tem diante de si toda a atenção dos alunos. Ao contrário da turma de lá que se entregava literalmente de corpo e alma aos estudos. E foi justamente esta dedicação que encheu de ímpeto pedagógico o mestre que utilizava explosivo de verdade para dar mais ênfase à explicação. A sala impávida a tudo absorvia.
Aula perfeita não fosse a distração do professor, coitado, que, tomado pela euforia de levar o ensinamento à rapaziada, equivocou-se, apertando o botão que só deveria ser acionado em momento oportuno. Aí tudo assumiu de fato um tom de realidade, e um calor emanado da coisa encheu de aconchego o recinto e conduziu os presentes ao trem com bilhete só de ida para a eternidade, onde os passageiros foram ter com suas virgens às margens dos rios de mel, contando ainda com a companhia do professor, agora, meio sem assunto.
RODOLFO OLIVARIS
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