CÉU DE BRIGADEIRO

Outro avião despenca dos ares, desta vez no extremo oriente deste mundo. Meio estranho, aliás, isso de oriente. Afinal, o Havaí é oriente da China, e pertence aos Estados Unidos, muito ocidente. É isso que dá viver num planeta redondo.

Na verdade o aparelho que voava em mundo redondo, não despencou, desapareceu. Pior é imaginar mais de duzentas vidas espalhadas pelo vazio, longe, muito longe do solo, ou do mar, ou de qualquer lugar…

Quantos números, meu Deus! Estatísticas macabras para quantificar a morte que pede carona em vôos de primeira ou de qualquer classe. Sem contar os pequenos que com certa constância, também entram nos cálculos dessa contabilidade de aterrissagens nada convencionais. Exemplo disso é o monomotor que também sumiu das telas de radar em plena selva do norte do meu país. Caiu como tantos outros espalhados pelas matas, mares, montanhas e cidades, vítimas de temporais, equipamentos confusos, controladores descontrolados, passarinhos, enfim.

Sem dúvida, algo de malévolo ronda o dia-a-dia do veículo mais espetacular, aquele que tem o privilégio de voar. E de cair. Algumas bocas, e não poucas, ousam lhe conferir o título de mais seguro meio de transporte. Ignorância à parte, um pensamento singelo vem à tona deste cérebro também redondo: a constatação de que um aparelho que voa não pode, em hipótese alguma, oferecer mais segurança do que outro que se desloca pelo chão. Não no início do século XXI. Dizem, inclusive, que se morre muito mais em acidentes de carro. Naturalmente, viaja-se muito mais no asfalto… É incomparável a quantidade de pessoas, a toda hora, num e noutro plano.

A tecnologia que auxilia e sujeita o homem, não tem conseguido, pois, eliminar obstáculos no trajeto dessas máquinas voadoras. Não inventaram, os gênios pós-Dumont, algo com poder suficiente para neutralizar a força dos temporais com seus ventos, relâmpagos, granizo e terrorismo. Tampouco criaram qualquer coisa que desse um basta na petulância do pássaro que insiste em disputar o espaço aéreo, antes só seu, com a ave de aço. E a turbulência, então, sorrateira, que faz bater no teto a cabeça do passageiro desatento… Os instrumentos de terra ou de bordo sequer detectam sua presença. Toda a engrenagem, humana ou eletrônica, parece, não anda lá muito azeitada para a tarefa de oferecer tranquilidade à gente que perambula pelos céus do mundo.

Conjecturas das autoridades terrestres espalham diagnósticos que determinam as possibilidades mecânico-atmosféricas por detrás da perda de tantas vidas. De concreto, só o desastre.

O que fazer, pois, quando toda a modernidade à disposição não é suficiente para evitar os instantes finais em que, talvez de mãos dadas, as pessoas se precipitem rumo ao vazio? A reportagem televisiva dá cobertura incansável ao sinistro, e passam muito tempo especulando a respeito jornais e revistas, o que certamente banaliza o assunto aos olhos dos vivos. Como banal deve se tornar o sentimento humano a bordo, no derradeiro instante em que soa inevitável a tragédia, e a dor de se saber morto em segundos acelera o coração, logo depois parado.

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

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