BENDITA TECNOLOGIA!

O sujeito na rua fala ao telefone. Gesticula como corretor da bolsa, negociando títulos. O celular tem esse poder de conferir certo ar imponente a quem o empunha em público e ainda eleva a voz para que os demais participem de assunto de interesse nenhum.

Assisto, pois, ao desenrolar da conversa, indiferente ao teor que não me chega aos ouvidos e tampouco é objeto da minha curiosidade, embora chame a atenção a fisionomia do homem, que não se mostra preocupada ou totalmente destituída de preocupação.

Mas figura importante o diálogo sobre algo que deve ser resolvido ali, sem muita demora. Efetivamente não tem a aparência de bate-papo entre amigos, o que se segue. O semblante meio carregado do indivíduo e sua voz de comando denunciam determinação e força na relação com o outro.

Parado no semáforo que esgota a paciência de quem tem pressa, divago sobre o espaço conquistado pela telefonia móvel neste país. Impressionante! Sem desmerecer sua utilidade prática, entretanto, noto com olhar apreensivo a relação do ser humano com a tecnologia. É coisa de paixão mesmo. O homem com sua máquina de falar e de ver coisas, a lhe consumir o tempo e a vida que é feita também de tempo e de pensamento, a despeito do pouco caso dedicado a este último.

O indivíduo na esquina, empenhado em resolver assunto de suma importância, deixa de lado até mesmo o ganha-pão para o debate com o interlocutor que teria lhe roubado a oportunidade do trânsito parado. O sinal fechado, lenta procissão de veículos, desafio à paciência de quem precisa seguir adiante, é fonte de lucro para aquele que anseia pelo carro parado para abordar o motorista, tentar amolecer seu coração e faturar algum. É o caso do sujeito de celular em punho, sentado numa cadeira de rodas. No pescoço, garrafa pet cortada ao meio com cadarço, recipiente para colocar moedas conseguidas com o suor do rosto. Faz calor, afinal, e ele é gordo.

E tanta reflexão só podia fazer despontar em minha memória de um tempo em que telefone era luxo para bem poucos. Hoje o celular facilita a vida das pessoas. Permite, por exemplo, ao pedinte resolver negócios enquanto pede. Milagre de tecnologia!

O sinal abre e fecha, e não consigo deslocar meu carro um metro que seja para me sentir mais confortável, mais tentado a acreditar na vida.

E o homem da cadeira finalmente encerra a ligação e volta ao trabalho: circular por entre os carros, numa das mãos garrafa de moedas, na outra o produto high-tech que alcançou os confins da terra e da sociedade.

Pena que ainda não inventaram máquina de livrar do engarrafamento, do atraso dos homens. Não criaram nada que produza bom senso, que refine a inteligência, que dê asas à criatividade e à sensibilidade. Mas criaram, isso sim, máquinas de falar e ver. E outras poderosíssimas máquinas de consumir. É o que basta por hora.

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

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