“É, pra morrer basta estar vivo”, dizia mamãe, convicta, todas as vezes que recebia a notícia do súbito desaparecimento de alguém. Coube a mim, diga-se de passagem, a lembrança desse ditado quando de sua partida. Máxima um tanto óbvia, eu sei, porém, perfeitamente cabível naquela hora em que o sinistro acontecimento tem o poder de causar perplexidade, mesmo que se saiba da realidade dos fatos e da fragilidade do fio, sustentáculo da vida. Basta olhar para o ser humano enquanto corpo a perambular por esse mundo, para que se viaje numa perigosa reflexão que pode levar à consciência de se saber frágil e desamparado.
Lembro-me quando, há alguns anos, fui tomado por essa desagradável sensação ao ouvir a voz de meu irmão ao telefone, nota de falecimento de um tio na flor dos sessenta anos, bestamente. E, diante do inevitável, o sempre presente e inoportuno comentário de alguém que, com certa dose de ingenuidade, dá o tom de indignação: “conversei com ele ainda ontem!”, como se não fosse possível falar com a pessoa e vê-la morta em cinco minutos.
Entretanto, que faço criticando a gente indignada, se estive a ponto de dizer o mesmo quando soube da morte de um amigo por quem tinha grande apreço? A notícia do nefasto AVC jogando por terra os projetos de vida de alguém com saúde aparentemente em ordem, já me causou estranheza. Em seguida, a derradeira informação deixou-me estupefato, já que esperava sua recuperação. Pensando no assunto, fiquei aborrecido e impressionado, exclamando para comigo mesmo: “um dia destes, fui contemplado com seu sorriso simpático e com o bom papo de sempre.” Contudo, foi levado por uma manifestação da natureza a que estamos sujeitos, eu, você e os demais habitantes dessa terra. O que há de se fazer?
Implacável, pois, é o tempo e, verdade seja dita, o homem ainda não aprendeu a conviver com ela, a morte, angústia de quem vive, como dizia Vinícius. Afinal, quem é capaz de sorrir ao se imaginar arrebatado dessa existência, sem chance de apelação?
E, mesmo diante da clareza com que a realidade lhe é esfregada na cara, teima, o sujeito, em banalizar acontecimentos, fenômenos, ações que, dada a devida atenção, poderiam até interferir de forma positiva em sua vida. Aspectos aparentemente simples que deveriam ser observados e considerados segundo sua importância, beleza e parte de um todo, não são percebidos. Apegam-se, pois, as pessoas, às futilidades e menosprezam instantes de intensa atividade que fazem valer a pena estar vivo.
Saboreie, pois, o ar, a água, a possibilidade de ir e vir, de pensar, de se sentir atuante em cada movimento, oh, ser humano!
PROF.RODOLFO DE SOUZA
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