COTIDIANO DA VIOLÊNCIA

               A rotina daquele dia começou com a explosão de um carro bomba no mercado. Dez pessoas tiveram os passaportes carimbados para a eternidade.

Abdul, filho de Bagdá, ainda não se habituou ao barulho ensurdecedor, ao susto, à correria e ao sangue espalhado por toda parte. Sonha, aos trinta anos, com mulher e filhos, embora a solidão lhe proporcione algum alívio em momentos de tamanha aflição. Não pode imaginar o medo triplicado diante do perigo de ter uma família a perambular pela cidade refém do terrorismo compulsivo.

Somando os ataques de um único dia normal daquele abril, cento e sessenta mortos engrossaram as estatísticas da tragédia nacional. Destroços de carros, prédios em ruínas e miséria, compondo um cenário familiar ao iraquiano que não se lembra mais da aparência de um ambiente livre de guerras, como aquele de nação distante que, mesmo apresentando índices alarmantes de violência, ainda é lugar onde a expectativa de uma vida melhor teima em existir. Lá na terra de Abdul não é assim.

A ditadura, que por décadas espalhou tirania pelo seu país, deu lugar a outro tipo de autoritarismo: o da disputa entre facções, do domínio imposto pela destruição e pela morte, da humilhação de ter a nação sob o jugo estrangeiro, do aniquilamento gradativo de uma cultura…

Abdul sente saudades do tempo em que andava pela capital histórica e via monumentos ao caudilho em cada esquina. Não era boa a vida, mas nada comparado ao sofrimento de hoje em que os salvadores do mundo vieram para livrá-lo da opressão, e o planeta, do mal: argumento incontestável do grande chefe branco de outrora.

O convívio com o choro desesperado torna o coração de Abdul mais duro a cada dia. Porém, o fuzil que seus irmãos, de todas as idades, ostentam, este não lhe atrai. Considera-o o revés da inteligência, a contramão da evolução. Pede a Alah lucidez diante do inferno, força para sobreviver e que livre seu caminho de homens com tendências suicidas e homicidas, tal qual seu primo Ali que, sonhando com o paraíso, deu cabo da própria vida e de outras tantas, em nome da Jihad.

Abdul percorre as ruas de sua cidade e tem dificuldade para caminhar pelos escombros, marcas da loucura humana. Tudo isso permeia seus sonhos e, quando dorme, o estampido das armas mistura-se aos gritos e às explosões. Sempre, todas as noites de sua vida.

O iraquiano já ouviu falar de aquecimento global, de destruição da camada de ozônio, e estranhamente sente-se dominado por um sentimento de justiça que há de cercear a felicidade de todo o mundo, residência fixa, também, dos algozes que promovem a falência de sociedades para defender interesses econômicos e a manutenção do poder, a qualquer preço.

 

PROF.RODOLFO DE SOUZA

 

 

 

 

 

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